Mais Ação no mercado nacional

Há alguns dias, os internautas ficaram sabendo da existência de um projeto para a criação de uma antologia nacional, com perfil shounen, nos moldes da famosa Shonen Jump, intitulada Ação Magazine.
O projeto é concepção de Alexandre Soares (Lancaster) dono do respeitado blog Maximum Cosmo. Visto que ele é um grande conhecedor de temas que envolvem shounen, seinen e gekiga, além dos mecanismos de produção japoneses, acreditamos que é a pessoa mais indicada para realizar essa empreitada. Existem bons nomes dentro de sua equipe e isso nos dá a visão de que eles têm uma boa chance de realizar uma mudança significativa no mercado.
Como o próprio Alexandre comentou em seu artigo recente sobre a Ação Magazine (ver aqui), o nosso mercado nacional já recebe o mangá em seu formato final: o tankohon. Desse modo, não passamos pelo processo de “seleção” que ocorre no Japão. Aqui, nosso mercado editorial funciona como uma roleta russa, você dispara na sorte. Os títulos chegam e são colocados à venda na esperança de que tenham a mesma repercussão de mercado que tiveram em seu país de origem, mas não se conhece o perfil exato do público e nem como ele reagirá a este material. Se der certo, deu, se não, cancela-se.
Recentemente, fizemos um processo semelhante dentro da revista Neo Tokyo, onde publicamos títulos como Zucker e, agora, Mitsar. O mecanismo foi o mesmo usado na revista informativa NewType (primeiro a série é apresentada em capítulos e depois recompilada e vendida no formato tankohon). Tivemos uma recepção positiva dos leitores, embora não nos tenha passado em branco o fato de que o brasileiro, em geral, não está acostumado a ver histórias em quadrinhos dentro de revistas informativas. Mas como tudo, esse é um processo de mercado e exige a adaptação gradativa dos leitores e das próprias mídias.
Na Ação Magazine, a ideia é usar o processo de “seleção natural” através da receptividade dos leitores pelos títulos apresentados e esse mecanismo mostra dois aspectos importantes que devem ser desenvolvidos aqui:

Primeiro: o leitor brasileiro perdeu o costume de dar um feedback “funcional”, faz tempo, para o que chega nas bancas e apenas uma minoria se interessa em fazer comentários. Contudo, existem grupos de leitores que fazem críticas baseadas nos títulos japoneses que chegam ao nosso país, sem se dar conta de que comparam capítulos de 20 ou 30 páginas com volumes de 150 a 200 páginas. Isso quando já não viram o anime ou leram o scanlation da obra em algum canto da internet, ou seja: avaliam um fragmento comparando com o todo de outra obra, não percebendo que, muitas vezes o primeiro capítulo de um mangá japonês é igual ao do título nacional que ele tem nas mãos, com a diferença de que ele terá que esperar para consumir o resto da história e não sabe o que está por vir. Os japoneses se adaptaram a isto e aos mecanismos de seleção. O público brasileiro terá que reaprender a se relacionar com as publicações nacionais e a esperar, como os japoneses (afinal eles não têm somente antologias semanais, mas mensais e bimestrais também!);

Segundo: o processo de seleção exige uma estrutura capaz de se adaptar a isso. Acreditamos que, como a proposta da Ação é esta, eles estão preparados para fazer mudanças. O artista nacional não costuma receber orientação dos editores, aliás, a maioria dos editores nacionais não costuma estar preparado para orientar; em geral, se concentra só em dados como “vendeu” ou “não vendeu”, mas eles não tentam entender o porquê. Esse processo de lapidação é essencial para compreender o mercado, saber o quê e quando mudar, o que deve ser levado em conta e o que deve ser ignorado. Isso também lapida os desenhistas e autores que compreendem mais o que as pessoas desejam ver e ler, mas sem perder de vista que eles também devem acreditar naquilo que estão criando.
O mecanismo de “seleção” dos títulos terá que ser bem eficiente e chegar aos leitores de modo que todos tenham a oportunidade de emitir suas opiniões com facilidade, seja pela internet, seja pela revista, como ocorre no Japão com seus “cupons de pesquisa” enviados pelo correio.
Como todas as respostas ainda não estão ao nosso alcance, só podemos esperar e torcer para que o processo seja contínuo, mesmo que difícil, mas que não sofra nenhuma interrupção, pois independente das histórias, do conteúdo ou dos mecanismos, o mercado nacional tem que dar mais passos adiante e seguir num processo de crescimento que já está estagnado tempo demais por teorias que não levam a lugar nenhum. É hora de Ação!


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6 respostas a Mais Ação no mercado nacional

  1. Alexandre disse:

    Obrigado, realmente. Você foi uma das que melhor pegou o espírito de nossa proposta.
    E sigamos em frente!

  2. Nossa, meninas! adorei o artigo!
    sim, já tinha lido coisas sobre a Ação, inclusive comentários de leitores te todos os tipos, desde os mais utópicos até os mais desacreditados.
    Sinceramente não sei se um sistema que existe em outro tipo de sociedade vai sobreviver aqui, mas se não, que seja um primeiro passo para uma evolução e adaptação do nosso mercado editorial de mangás, que, como vcs bem disseram, está apenas engatinhando.

    Sério, amo ver que os nacionais estão lutando para entrar lado a lado aos consagrados nipônicos, e acho que se todos fizermos um pouco, tanto como atores (criando, divulgando etc) quanto como espectadores-leitores, nosso mercado vai crescer tanto quanto o de literatura nacional está crescendo e se desenvolvendo (saudavelmente).
    ^^
    Por isso, as parabenizo de novo, do fundo do coração, por serem parte chave deste processo tão lindo que é o desabrochar dos talentos nacionais.
    E gambare pra nóis! heheh
    o//

  3. Jussara Gonzo disse:

    Estava esperando o momento em que vocês iriam se manifestar sobre a Ação Magazine – alias acho que todo mundo que trabalha/já trabalhou/ pretende trabalhar com mangá (e até quadrinhos em geral) neste país DEVE se pronunciar sobre o almanaque. Pois antes mesmo deste projeto sair nas bancas já pode ser considerado um marco!

    Alias, se a revista vingar neste tipo de formato, pode ser que haja outros (quem sabem um almanaque Shojo com a presença de vocês?), não apenas de mangá, mas de outros generos de narrativa quadrinística – como as comics britânicas que são publicadas em almanaques-tablóides (embora, neste caso, já tenham lugar cativo na revista, sem padecer de “votação”).

    Quero me despir imediatamente de TODOS os preconceitos e pessimismos e desejar sorte à TODOS os mangakás brazucas: vocês, o povo da Ação Magazine, as meninas da HQM, os meninos da nova hq de Tormenta e outros mais que estão preparando projetos, prontos para serem engatilhados!

    Este é o momento!

  4. Takamura disse:

    Estou torcendo para que este projeto dê muito certo e, em especial, que abra espaço para outros aspirantes a manga-kás, como eu e tantos outros que sonham em um dia ter seus trabalhos publicados. O Lancaster está sendo o pioneiro, mas espero que muitos outros sigam seu exemplo, e não nos limitemos a apenas um estilo.

    Boa sorte a todos os envolvidos no projeto. Já estou ansioso para ler o almanaque….

  5. Victor disse:

    Yeah! Vamos quebrar os malditos paradigmas, pessoal!

    Chega de aturar a incompetência reinate dos editores, em brave NÓS vamos ditar O QUÊ queremos ler e o PORQUÊ!!

  6. soni disse:

    Oi meninas do Seasons! Hoje é dia Mundial do Desenhista, por isso, nós do Futago desejamos parabéns ao Seasons e a todos que fazem mangá neste país e muito sucesso!! Grande beijo!!!

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