Três Mulheres e seus Universos Literários

Foi somente há pouco tempo que tive a oportunidade de ver a série da BBC de Londres, Norte e Sul (North & South) baseado na obra homônima de Elizabeth Gaskell. Não conhecia esta escritora e resolvi coletar alguns dados para escrever este post, mas eu não quero falar aqui apenas desta série, cuja adaptação ficou boa (e explicarei o porquê mais adiante); como sou uma apreciadora da literatura de época, não poderia deixar de observar pontos interessantes entre Gaskell e outras duas excelentes escritoras, cada uma em seu universo literário: Jane Austen e Georgette Heyer.
É interessante que todos os autores colocam muito de si dentro de suas obras. A máxima literária que diz “escreva sobre o que você conhece” é de grande beneficio para o sucesso de um livro e nenhuma dessas três mulheres ímpares deixou essa regra de lado.
Quando assisti North & South tive uma impressão muito boa do material e, curiosamente, cheguei a ler comparações da obra com Orgulho e Preconceito de Jane Austen. No Brasil, não se publicou nada de Gaskell e essa obra só é encontrada em inglês para vender por aqui, ao contrário do trabalho de Austen, que foi quase todo traduzido para nossa língua. Contudo, mesmo que a maioria das comparações seja positiva – pois nenhuma das duas tem nada a dever em qualidade – não são, de fato, universos literários comparáveis.

Jane Austen (1775-1817) era uma jovem proveniente da burguesia agrária inglesa, filha de um pastor e pertencente a um restrito círculo social. No entanto, todas as limitações sociais impostas para as mulheres em sua época não foram suficientes para ofuscar sua capacidade de observação. O universo literário de Austen nos fala de seu mundo privado, suas relações sociais e seus anseios particulares. Sim, seus anseios. A crítica da época alegava que Jane Austen era inadequada para escrever romances, afinal não tinha “experiência no assunto” – se por um lado Jane não era uma mulher realizada num casamento, segundo as normas da época, por outro, ela tinha um grande universo emocional guardado dentro de si. Austen teve um jovem pretendente, mas a relação de ambos não seguiu adiante por questões de impossibilidade financeira para a realização do casamento – e essa questão marcaria sua literatura profundamente. Todas as suas obras giram ao redor das necessidades e obrigações sociais do universo feminino da época; as preocupações de suas personagens giram ao redor de questões como um futuro/casamento seguro e herança. Isso pode soar às leitoras modernas algo materialista e pouco romântico, mas numa Inglaterra, onde em certas camadas sociais trabalhar era considerado inadequado, onde as leis ditavam que só os homens herdavam bens familiares e a reputação de uma mulher era seu “cartão de visitas”, estas preocupações eram muito pertinentes.
Contudo, o universo de Austen também era regrado pelas emoções. Podemos notar que, mesmo quando as questões financeiras são importantes, suas protagonistas têm uma percepção muito aprofundada do casamento como relação. Ainda que tenham defeitos capazes de fazê-las cometer erros de avaliação ou fraquejar diante de certas adversidades, suas personalidades possuem uma grande capacidade de reavaliação e adaptação – qualidades essenciais numa sociedade patriarcal. Em Persuasão, sua última obra, temos uma história que, em alguns aspectos, é autobiográfica. Austen pode ser colocada na posição de Anne, em certos momentos, com facilidade, não apenas pelo fato de ambas viverem certo tempo na cidade de Bath, como pela impossibilidade de uma relação se concretizar, num primeiro momento, por questões financeiras. Mas Anne tem um final feliz – seria esse o desejo íntimo de Austen? Reencontrar alguém que amou? Ela teve, anos depois de sua separação, a chance de conhecer um outro pretendente, mas recusou, assim como Elizabeth em Orgulho e Preconceito recusara seu primo pastor, por não amá-lo. A linha de comportamento de suas personagens está intimamente ligada com a mentalidade da autora, que sempre retratava com fina ironia as regras sociais ao qual ela mesma tinha de se submeter. As obras de Austen talvez mostrem coisas que ela gostaria de ver acontecendo em seu meio com mais frequência.

Mas, se por um lado Austen nos mostrou seu universo doméstico-familiar-social, Elizabeth Gaskell (1810-1865) nos fala de uma Inglaterra industrial que não lhe é menos estranha e North & South, é, de fato, uma de suas obras mais biográficas. A protagonista Margareth Hale é quase um alter ego de Gaskell. Nessa obra, podemos acompanhar a jornada de Margareth, filha de um pastor, que larga sua profissão por questões de ética e consciência, fazendo sua esposa e filha mudarem do sul da Inglaterra, onde tinham uma posição privilegiada no campo, para o norte, na industrial cidade de Milton. Lá, eles se confrontam com a revolução industrial, as mazelas do mundo operário e as dificuldades financeiras vividas pelos donos de fábricas. O aspecto romântico da obra é criado pelo confronto ideológico de Margareth e o industrial e magistrado John Thornton, símbolo máximo de sua época. Não se trata apenas de uma história de amor onde existem barreiras sociais e todos os conflitos implícitos em uma paixão contida por regras rígidas de etiqueta, é também uma história de ideologias sociais, onde ambos os lados devem repensar suas posições para chegar a um equilíbrio de pensamentos e atitudes que não sejam tão simplistas quanto o conceito “ricos são maus e pobres são bons” – Gaskell era uma escritora observadora e integrada em sua época. Ela também teve um pai pastor que largou o cargo pelos mesmos motivos que o pai de Elizabeth; isso também acarretou na sua mudança para outra cidade, no caso, Londres. Gaskell pegou a linha de ação de sua vida para criar o universo de North & South – a liberdade de circulação de Margareth é um reflexo da liberdade (e um pouco de abandono por parte da família) dela, que foi criada por uma tia e avós. Gaskell viria a se tornar uma escritora que retratava com detalhes sua época efervescente, a riqueza das regionalidades e falava do universo de pessoas pobres – algo que não fazia parte do meio de Austen. Após se casar, ela e seu marido frequentaram círculos, onde vários autores proeminentes ingressaram, assim como dissidentes religiosos e reformadores sociais. Ali, faria amizade com Charles Dickens, que publicou várias de suas histórias de fantasmas, bem populares na Inglaterra. Curiosamente Margareth era o nome de sua terceira filha.

Georgette Heyer (1902-1974) é, infelizmente, uma autora praticamente desconhecida por aqui, mas muito famosa na Inglaterra. Ela estabeleceu o gênero do romance histórico, inpirado nas obras de Austen, conhecido como Regency Romance, além de escrever muitas novelas policiais e contos. No Brasil, poucos de seus títulos foram publicados como Venetia – que aqui foi intitulado como Venetia e o Libertido – e Casamento de Conveniência, ambos pela editora Record.
Heyer era uma mulher do século XX, dinâmica e responsável por parte do sustento de sua família. Como entrar no universo de outras épocas, então? A primeira coisa que fez para criar seus romances foi pesquisar e o fez com tanto empenho que se tornou uma especialista em história social inglesa. Era considerada, no meio literário, como uma das grandes conhecedoras de expressões, costumes e dados da Inglaterra histórica. Tudo isso foi usado para construir seu universo literário – os livros de Heyer são famosos pela quantidade de informações e minúcias, mas não pense numa obra cansativa: Heyer sabia equilibrar esse universo com personagens divertidas e tramas bem tecidas. Essa capacidade de reconstituir uma época era uma necessidade pura e simples, visto que grande parte de suas histórias não eram contemporâneas aos seus leitores – era necessário mostrar o universo onde suas personagens habitavam.
Heyer supre a necessidade de informação para o leitor, coisa que não era a prioridade de Austen, já que escrevia para os de sua época. Por esse detalhe, Heyer chegou a ser criticada como alguém que “descrevia demais as coisas e se tornava dependente da criação de sua atmosfera” ou “não o fazia com igual empenho sobre sua época” (nota: não havia necessidade disso, como para Austen não havia necessidade de descrever roupas e mobília para leitores que estavam “carecas” de saber como as coisas de seu tempo eram). Por outro lado, sua capacidade de reconstruir períodos históricos é considerada o seu maior patrimônio. Ironicamente, tanto Austen quanto Heyer tinham uma coisa em comum: suas histórias não incluíam as classes pobres da Inglaterra.
Outro aspecto importante do universo literário de Heyer é que suas personagens têm uma desenvoltura maior, uma visão mais moderna e comportamentos excêntricos como “casar por amor” (coisa já ensaiada por Austen e Gaskell). Em Venetia notamos a extrema desenvoltura da personagem que não deixa de refletir a mulher do século XX que era Heyer. Isso também se dá pela mudança de público. Um autor não apenas escreve sobre o que conhece, mas para quem lê. Vários críticos tentaram fazer comparações com Austen para depreciar Heyer, mas o fato é que não se pode fazer comparações. São escritoras de épocas e realidades diferentes escrevendo para públicos diferentes.
É um fato que Austen e Gaskell são autoras primorosas e irretocáveis em seus mundos, mas sempre exigirão do leitor moderno a boa vontade de serem transportados para seus universos e, de preferência, de compreender um pouco destes. Isso não é ruim, ao contrário, é ótimo, pois faz o leitor sair de sua realidade para vivenciar uma outra que seria impossível no seu cotidiano. Heyer nos leva para esse mundo também, mas com um elemento a seu favor: suas personagens se parecem mais conosco. Isso não é propriamente estilo, mas a necessidade comercial de uma época. As pessoas consomem mais aquilo que lhe agrada e, para agradar, é necessária identificação rápida. Também é um conceito válido.
Da mesma forma, a adaptação de North & South de Gaskell sofreu alterações para se adaptar aos telespectadores atuais. Se, por um lado, o visual é impecável, as mudanças no enredo se fazem necessárias para que o público possa digerir o universo de 1850 e o final, onde ambos se encontram na estação de trem, diferente do final do livro, é icônico de nossos tempos: um final onde ambos se encontram porque ambos caminharam na direção um do outro, e não apenas um. Se submissão feminina não cabe em nosso tempo, submissão masculina também não é desejável. E nesse ponto, a adaptação para série nos deixa um equilíbrio que dá o que pensar. É mais um sinal dos tempos: igualdade é para os dois lados.
Todas as mulheres criadas por estas três autoras revelavam muito do que elas eram; de seus desejos, seus pensamentos e, principalmente, do tempo em que viviam. Que venham outras autoras e nos mostrem seus mundos contidos nas entrelinhas de suas histórias.

Abraço! ^_____^


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Uma resposta a Três Mulheres e seus Universos Literários

  1. Valdirene disse:

    Excelente matéria. Não conheço a obra de Georgette Heyer, mais ela já está inclusa na lista dos autores que eu tenho a obrigação de ler. Amo literatura de época e Jane Austen é minha preferida. Disseste bem, que venham outras autoras… boa obra nunca é demais.

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