Garotas e fronteiras!

Esta semana recebi um livro que ganhei no sorteio do blog Lady’s Comics e não poderia me furtar a fazer alguns comentários tanto sobre o material, como sobre alguns pontos interessantes sobre fronteiras.
O livro em questão é “Vamos, Garotas! Alceu Penna – Moda, corpo e emancipação feminina (1938-1957)”, de Gabriela Ordones Penna.
A obra, em si, é muito boa. Trata do trabalho de Alceu Penna (1915-1980), ilustrador, estilista e colaborador da revista “O Cruzeiro” durante o período em que criou a seção “Garotas”. Ele não foi apenas um excelente artista gráfico que marcou a história da publicação nacional com suas lindas garotas, criando nossa referência de pin-up nacional, na época: ele foi um observador sutil de seu tempo que, utilizando o humor, pôde falar sobre atitudes ousadas de mulheres, numa época em que ainda se mantinha extremo conservadorismo. Claro, tudo muito suave, mas estava lá. Ele não se posicionou como um crítico, mas como um cronista visual de seu tempo e nos deixou referências preciosas do Brasil entre Vargas e J.K.
“As garotas do Alceu” como ficaram conhecidas, foram referências no país inteiro para as jovens mulheres classe média da época e, curiosamente, eram muito “cariocas”. Sim, isso porque, na época, o Rio ainda era nossa capital e tudo que provinha do Rio de Janeiro era modelo para os outros pontos do país.
E aqui entra a parte das fronteiras. Alceu Penna, este criativo e observador artista que retratou tão bem a graciosidade carioca… era mineiro. Sua capacidade de observar a vida cotidiana e sua sensibilidade para observar as sutilezas do universo feminino da época, foi capaz de fazê-lo atravessar sem problemas essa fronteira regional.
É um fato que Alceu saiu logo de Minas e viveu no Rio, mas ele ter nascido em um estado e se adaptado a outro me recordou dos comentários de algumas pessoas a defender que uma região só pode ser retratada por pessoas da região. É claro que os nativos conhecem melhor do que ninguém certas características de um local, mas isso não justifica o conceito de “separatismo cultural”, ou seja: “Cuide do seu pedaço que este é nosso!” É lamentável que em pleno século XXI ainda existam pessoas com conceitos tão pequenos e arcaicos. Não existe nada que não possa ser observado e compreendido; nada que não possa ser transmitido por outros, com o devido cuidado e respeito por uma cultura regional. Compreender que todos os espaços, lugares e culturas fazem parte da nossa vida, em maior ou menor escala, é o primeiro passo para uma vivência de respeito, entrosamento e real equilíbrio. Isso se estende ao mundo e não apenas a um país. Somos seres humanos, não seres brasileiros, russos ou paulistas! Quando as pessoas pararem de pensar em termos de fronteiras e começarem a pensar em termos de planeta, aí sim, teremos um salto social relevante em todos os aspectos.
Um país pode ser plural e unificado ao mesmo tempo, sem jogos de força, mesmo porque a herança cultural de um povo não pode ser medida, nem calculada. Cada cultura é única e deveria ser compartilhada por todos os interessados com alegria.
E da mesma maneira que em pleno século XXI as “Garotas do Alceu”, ou seja, todas nós, ainda buscamos respeito para nossa identidade feminina perante a sociedade, o Brasil e o Mundo buscam emancipação de fronteiras para ter uma identidade unificada e plural, ao mesmo tempo.
Vale muito a pena ler este livro e indico para todos os interessados.

Um abraço! ^_____^

Vamos, Garotas! Alceu Pena – Moda, corpo e emancipação feminina (1938-1957)
Gabriela Ordones Penna
Formato 14X21 cm, 148 páginas
ISBN 978-85-391-0122-1

Annablume Editora


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