A força da imagem e o poder da informação

Alfred Hitchcock, o mestre dos filmes de suspense, certa vez, durante as filmagens de seu filme Janela Indiscreta, exemplificou a força da imagem da seguinte maneira:

“Pense num homem observando algo através de uma janela e sorrindo. Em seguida, corte a cena e enfoque no objeto de sua observação: outra janela num prédio à frente. Se você colocar uma mulher com um bebê no colo, automaticamente, o espectador imaginará que o homem é uma pessoa sensível, uma boa pessoa. Mas… tire essa imagem e no lugar da mulher com o bebê, coloque uma garota, despindo-se. Pronto! Seu homem de bem virou um pervertido. Vê? Essa é a força de uma imagem!”

Bem, Hitchock entendia muito bem de imagem e seus simbolismos, da mesma forma que também sabia usá-la para obter o efeito desejado. Ele começou cedo, mesmo antes do cinema, trabalhando no departamento de publicidade da Telegraph Henley, empresa que colaborou com o governo inglês na Primeira Guerra Mundial.

Mas o que isso tem a ver com esse post, afinal?

Vamos ilustrar o exemplo de Hithcock com algo que aconteceu essa semana. Vê a foto do post? Imagine que o ator ao invés de um mangá esteja lendo um livro. O que você imaginaria? Que ele é um intelectual, culto, um homem estudado? E se fosse um jornal esportivo? Seria um sujeito que gosta de futebol, mais dinâmico? Se o colocarmos lendo o próprio mangá, ele lhe parecerá alguém mais jovem do que é, um descolado, um fã de quadrinhos, ou algo assim? A cada objeto que é colocado em suas mãos, mudam-se as características do personagem – se você altera a imagem, sua mente a interpreta de “n” formas através de associação visual.

Agora vamos brincar um pouco mais fundo.

Você vê esse personagem lendo mangá e recebe a informação de que é uma pessoa “legal”, que trabalha ou estuda, enfim, alguém que se esforça para ser uma pessoa melhor. O que vem a sua mente? Ele lê quadrinhos, mas é um cara legal, então quadrinhos são coisas que podem ser lidas por pessoas de “bem”. Certo. Mas, e se a pessoa em questão é um mau caráter, um mentiroso manipulador e um vagabundo por opção? O que um indivíduo como esse pode ler de bom num mangá, já que ele segue um arquétipo “errado”? Mangás, dessa forma, se tornam uma leitura atrativa para desajustados. Curioso, não? Esse é o poder da informação!

Essa cena aconteceu nessa quinta-feira, 29/11/2012, no capítulo que foi ao ar da novela Guerra dos Sexos. O personagem Zenon apareceu lendo um volume do mangá shounen Tsubasa Reservoir Chronicle da Clamp (sim, é um shounen! Era publicado na Weekly Shounen Magazine). Não, ele não é um cara legal, é o personagem tipo desajustado, trapaceiro, mau caráter e manipulador.  Você que lê quadrinhos pode saber que isso não tem nada a ver. Qualquer um poderia ler quadrinhos, assim como muita gente sacana lê Ilíada de Homero e isso não é um indicativo de caráter. Mas o público em geral, para o qual as novelas são direcionadas, acredita em mensagens de massa, em pacotes informativos prontos, de forma comodista e subconsciente, claro, e é dessa forma que compram ideias por associação direta. “Vilões leem coisas que não prestam e ponto.” O Mau absorve o Mau, o Bem absorve o Bem; simples maniqueísmo.

“Quadrinhos são vistos como um material transgressor que só serve de atrativo para pessoas desocupadas.” Essa ideia surgiu nos anos 50, basicamente e, até hoje, permeia o imaginário popular. Mas espera aí? Você lê quadrinhos? É legal, estuda ou trabalha? Esforça-se de alguma forma e não foi “corrompido” por esse tipo de leitura? Não sacaneia gente boa ou mente para atingir objetivos sórdidos? Quer ser uma pessoa melhor no mundo? Então, por que quadrinhos ainda são retratados como leitura para os desajustados, sabendo-se que não é um material “maligno” ou corruptor de caráter, conseguindo, depois de muitos anos de esforço, ser visto como uma forma de literatura?

Por que a mídia televisiva faz esse desserviço constante a esse veículo de entretenimento e leitura? Marketing? Pouco provável, não? Afinal, pela lógica, uma editora nunca gastaria uma grana absurda para divulgar, numa novela, um título que já se encerrou e, ainda por cima,  visto nas mãos do pior exemplo de pessoa.

Você pode pensar que talvez tenha sido coincidência. Uma cena aleatória? Bem, não acreditamos em cenas aleatórias feitas em um grande veículo de comunicação como a televisão, e não é a primeira vez que essa emissora expõem quadrinhos (em especial, mangá) como um produto corruptor. Na novela “Senhora de Destino”, existe menção similar onde um personagem fora dos padrões é visto lendo uma revista fictícia com a palavra mangá escrita em letras de destaque na capa. Feito para ser vista. Coincidências?

Vimos alguns leitores inocentes comemorando a aparição de um personagem global lendo um mangá. Para nós que produzimos quadrinhos e que conhecemos o poder de uma história, de uma informação e de uma imagem, não há nada para se comemorar. Não, nessas condições.

E você, o que vê?


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6 respostas a A força da imagem e o poder da informação

  1. Jussara Gonzo disse:

    Como já comentei lá no deviant, e repito aqui: a globo não está tentando manchar ou melhorar as imagens dos mangás. Ela está pouco se lixando. O contra-regra precisava colocar na mão do ator (cuja função naquela cena era ler algo) algum livro ou revista.

    Só que revistas podem caracterizar propaganda gratuita, livros podem realmente “pegar mal”, colocar um gibi tipo Pato Donald ou Turma da Monica alem de também ser uma publicidade gratuita poderia haver uma encheção de saco do “pegar mal” também. Então escolhem um gibi aleatória (provavelmente sobras daquele infame programa da fatima bernardes) que não é mais publicado e, pimba!

    …OU pode ser que o ator curta mesmo mangá e tinha ele na bolsa. Aí na hora de ler algo ele sugeriu continuar ler a revistinha que estava lendo. Nunca se sabe

    (also, não assisto esta novela e nem sei que personagem é este)

  2. Megasônicos disse:

    Miguel Falabella um dia disse de forma muito inteligente.
    ” …falem mal, mas falem de mim! ”
    A frase originalmente não é dele, mas serviu como uma luva em um episódio de sua vida.
    Sua peça havia estreado e foi um fracasso monumental. No dia seguinte se tornou manchete a fatídica desgraça . Porém a foto estava linda, e ninguém leu o anuncio, mas sim viu a foto. A noticia de que Falabella estava em cartaz se espalhou. Lotando todos os próximos espetáculos à partir de então.
    Essa é a força da imagem.

    A associação com o personagem dessa foto à cima, pode ser ruim para quem vê a novela. Eu por exemplo não vejo, mas gosto de mangá. Até conheço o ator e havia me surpreendido positivamente ao vê-lo lendo esse exemplar. Por tanto é uma “faca de dois legumes” ( rs ) .

    Pode ser uma boa publicidade também !

    • Infelizmente, a maioria massiva que vê novelas não lê quadrinhos e a personagem em questão não goza da popularidade de um ator como “Miguel Falabella” (foi isso que fez sua peça ter um up, após essa divulgação às avessas). Para quem lê quadrinhos e não vê a novela, os efeitos podem ser “benéficos”, mas o que fica para a grande massa é que um “vilão” lê quadrinhos, então é leitura desaconselhada. Pode até ser algo que não cause efeitos diretos, mas não é irrelevante vindo de uma emissora que dita moda e tendências de mercado há anos. Nem tudo que vai para a mídia fica popular, principalmente se é associado de forma sistemática à personagens desajustadas. E acreditamos que o telespectador leigo de novelas não sabe que Tsubasa é uma história “legal” do mesmo modo que sabem que Miguel Falabella é um ator e diretor popular ^_^

  3. disse:

    Sim, você tem razão. Mas, será que não está generalizando demais? Além do mais eu assisti a cena, e a imagem do mangá não estava em foco. Sem contar que foi uma cena de segundos em que o personagem estava lendo. Mangás e quadrinhos são baratos e, sim, podem ser imagens atribuídas a juventude. Mas, eu não vi o que você descreveu realmente acontecendo. ‘-‘ Ninguém queimou um mangá de Tsubasa por ai, falando nisso, não diziam que o jogo de cartas de Yu-Gi-Oh! era do demônio? As pessoas jogam até hoje, o anime faz um sucesso relativo e sempre que alguém vê os cards mostra um interesse positivo. Você generaliza dizendo que quem assiste a novela vai ou não pensar isso, mas eu duvido que alguém realmente tenha se apegado a ideia de que aquilo era um mangá e associado naquele momento que mangás são coisas de desajustados.
    Nós, humanos, pensamos de formas diferentes. Cada um tem sua leitura do que é ou não é certo, do que é considerável ou não. Além do mais, não é todo mundo que conhecem mangás. Tem gente que nunca ouviu falar. E, os meus pais que assistem a novela estavam comigo na sala assistindo esse capitulo, quando eu chamei a atenção deles para o fato de que era um mangá eles simplesmente fizeram cada de paisagem e continuaram a assistir como se aquele pequeno elemento da cena fosse o menos interessante, então, insignificante. Claro, essa foi a reação deles, mas estou dizendo que nem todo mundo reagiu dessa forma que você disse. Não se pode generalizar esse tipo de coisa!

  4. Bruno Pedroso disse:

    “..Mangás e quadrinhos são baratos…” Muuuuuuuuuuuuuuuito barato … ¬¬°
    Bom, como não assisto a novela não sei sobre o “tar” do personagem, a questão mais levantada é o fato de ser colocado uma mensagem subliminar, no post acima é dito que os pais fizeram cara de paisagem, e é bem isso, não é algo que fique na cara, e sim algo que foi jogado pra ficar lá no subconsciente com uma imagem sujeita a um interpretação posterior.

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