Quadrinhos e Representatividade

Já faz algum tempo que queria escrever isso, depois de uma série de pequenos episódios curiosos! Já que estamos no mês de aniversário de 16 anos do Studio Seasons, vamos falar de coisas pontuais sobre fazer quadrinhos e fazê-los com mulheres… para todos!

Começando. Li o magnífico Dicionário das Mulheres do Brasil (Zahar), organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil. Material excelente para referência de personagens femininas que fizeram a história do Brasil. O curioso ao folhearmos a obra é nos deparamos com a incrível piloto, Ada Rogato, detentora de feitos aéreos maravilhosos nos anos 50, ou a pioneira radioatriz Cordélia Ferreira. E quem sabe aqui, que Léa Campos se tornou a primeira mulher árbitro do mundo em 1971?
Pois é, todas essas e muitas outras mulheres que romperam barreiras em seu tempo são personagens maravilhosas ou, senão, base para personagens incríveis num Brasil totalmente possível e extraordinário de ser mostrado em quadrinhos, e até num mundo imaginário. Nada de didático! Nada de textos educacionais! Estou falando de aventura, de sonhos, de romper limites, barreiras! Mulheres que fundaram jornais, lutaram por igualdade, foram as ruas, voaram nos céus, se tornaram médicas, mulheres fabulosas e, infelizmente, mulheres esquecidas de nossa história. É nessas mulheres que vale a pena se basear para criar personagens, não em garotas idealizadas e superficiais, impressas em travesseiros, com sonhos de consumo sem sentido. E se você pensa que elas dariam mulheres chatas ou velhas, lembre-se que todas elas foram garotas jovens e cheias de força de vontade. Elas, sim, são dignas de serem representadas. Há um bom tempo, no grupo de discussão Mulheres em Quadrinhos no Facebook surgiu a questão da representatividade feminina, não apenas das personagens, mas da nossa representatividade como autoras, coloristas e desenhistas na área de quadrinhos. Dessa discussão surgiu a ideia de criar uma revista feita por mulheres chamada Inverna, a exemplo de outras revistas estrangeiras que abordam essa questão. Ela está em processo de captação de material para seu número inicial, e vale muito a pena conhecer. O blog da revista pode ser acessado aqui.
Vamos lá, garotas! Animem-se e mostrem suas capacidades! E não, não é material que só pode ser lido por mulheres! Homens, por favor, animem-se a conhecer esse universo, ele é seu também. Sejam bem-vindos! Vamos jogar fora essa tarja ridícula de que mulher só escreve história de mulher para mulher. Cruzes! Estamos no século 21, pessoal!

Gostaria de aproveitar a deixa sobre representatividade e falar de outro tema legal: nosso folclore. Em outubro alguns comemoravam o Halloween e outros, o dia do Saci (criado para combater o Halloween). Sou da opinião que o caminho não é tentar exterminar o Halloween, mas sim resgatar nosso folclore. Se as pessoas gostam de tradições de fora, tudo bem, não tem nada de errado nisso, mas vamos conhecer as nossas também. Folclore brasileiro é chato? Parece que é! O folclore infantilizado e didático ensinado nas escolas é um porre, mas vá atrás do nosso folclore real, das obras e registros de Luiz Câmara Cascudo e vai descobrir demônios indígenas devoradores escondidos nas matas, tatu branco e um saci agourento, chamariz de má sorte. O erro da nossa sociedade foi tentar fazer nosso folclore se tornar digerível para as crianças quando era assunto de gente grande; foi feito para assustar e preencher nosso imaginário com medos e superstições. Alguém vê zumbi bonzinho, bruxas simpáticas ou vampiros amiguinhos (Crepúsculo não vale) na iconografia das festas de Halloween!? Todo mundo quer o fantástico, o extraordinário, o sobrenatural permeando sua realidade e, isso, nossas tradições têm de sobra. É um fato que, toda vez que se tenta “didatizar” o horror, ele se torna ridículo ou motivo de sátira. A função do horror, do sobrenatural, é mexer conosco, nos incomodar, nos fazer sair do lugar, uma função muitas vezes social e filosófica. Esconder nos mitos sua natureza animista e primeva, através de cartilhas didáticas cristãs, foi um desserviço às nossas tradições e cultura. Então, autores? Que tal trazer esse material à tona e dar um up nele? Remasterizar, turbinar. Todo mundo lá fora faz isso, nós é que estamos “moscando”. Para variar!

Há um mês aproximadamente, recepcionei uma estudiosa francesa que está fazendo uma pesquisa no Brasil sobre quadrinhos, e fiquei maravilhada com sua visão e interesse em relação aos trabalhos feitos aqui. Selecionou nosso trabalho Zucker, no qual colocamos elementos da cultura do Sul, e chamou-lhe muito a atenção as notas de rodapé. Ela visualizou como um trabalho detalhado e rico (que ironia: os europeus respeitam isso, e aqui existem os “entendidos” querendo criticar todo esse cuidado técnico. Foi justamente esse cuidado que fez com que nos destacássemos em sua pesquisa). Tive a oportunidade de mostrar vários trabalhos nacionais, inclusive Madenka de Will Walbr como um exemplo de exploração de nosso folclore nos quadrinhos com o tema revisitado e valorizado.

Bem, resumindo: existe um mundo de coisas para se conhecer. Então, leiam mais livros de pesquisa e passem menos tempo vendo desenhos no computador se quiserem trabalhar com quadrinhos. Para se fazer quadrinhos é preciso conhecer os signos, as mensagens e questionar os conceitos estabelecidos na sociedade. Verificar as ideias e ver se são válidas mesmo. Conhecer, buscar!

Nada contra seu ponto de vista, mas tem certeza que ele é seu mesmo?


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5 respostas a Quadrinhos e Representatividade

  1. Melani disse:

    Primeiro gostaria de dizer que adoro o trabalho do studio seasons, mas nesse post eu fiquei ofendida quando foi dito que as bruxas não poderiam ser representadas como simáticas. Eu entendi o contexto do argumento, mas nós pagãs ( e pagãos) bruxos e bruxas sofremos muito preconceito com o esteriótipo de sermos maus e adoradores do diabo, sabe? nós temos tentado conscientizar as pessoas para que elas nos respeitem ( ou pelo menos que não nos persigam mais) mas isso é difícil porque o esteriótipo esta muito enraizado. Então nós gostaríamos de ver mais pagãos e buxos sendo retratados como pessoas normais.
    Fora isso, concordo que devemos valorizar mais o nosso folclore que é extremamente rico, principalmente quando se trata de lendas indígenas, nós até temos um dragão ( serpente de fogo) o boitatá :))
    ( Por favor não considerem minha fala sobre o esteriótipo da bruxa uma critica a vocês, foi só um desabafo meu como pagã )
    Imhotep ^^

    • Olá Melani,
      Em nenhum momento eu disse que bruxas não eram simpáticas ou boas de verdade. O que ocorre é que na iconografia atual do Halloween, elas são retratadas de acordo com a tradição judaico-cristã. Conheço pessoas que são “pagãs” (eu mesma não sigo nenhuma religião, e poderia ser considerada uma) e têm excelente caráter e conceitos de vida. Se fossemos levar de forma mais rígida a eliminação de conceitos distorcidos, tanto o atual Halloween quanto outras comemorações deveriam ser banidas por perpetuarem muitas dessas ideias. O importante é saber que apesar da iconografia não corresponder totalmente à realidade histórica, as pessoas participam dessas festividades como uma brincadeira e forma de lembrar essas tradições. O ideal seria que todos que participam do Halloween soubessem o seu significado original, assim como todas as pessoas que participam do dia do Saci.
      No mais, agradecemos por ter gostado do post e por acompanhar nosso trabalho!
      Shalom adonai! ^_~
      Montserrat

  2. Sara disse:

    Gostei da matéria, principalmente quanto a respeito do folclore brasileiro e devo acrescentar que depois de tanto tempo infantilizando contos e lendas brasileiras, árdua será a tarefa de resgatá-lo para um sobrenatural mais denso e menos suavizado.
    Não conheço muito o trabalho de artistas e quadrinistas brasileiros (aliás seria interessante conhecê-los mais a fundo) e o último comentário direcionados aos que querem trabalhar com quadrinhos, que devem passar menos tempo vendo desenhos no computador e estudar/ conhecer mais me atingiu na alma, pois tenho esse defeito terrível de interromper projetos para observar a arte dos outros e me lamentar por não conseguir desenhar tão bem.
    Mas não considero isso de todo ruim, acredito que olhar desenhos no computador pode oferecer suporte para eventuais dúvidas a respeito de determinada pose ou afins, mas claro, se analisado da maneira correta, olhar por olhar, é melhor ir estudar ou ler mesmo.
    Parabéns pela matéria.

  3. wagner disse:

    Estou comentando aqui comum pouco de atraso porque não acompanhava o blog. Só o conheci agora (apesar que eu já conhecia o Studio) pois estou escrevendo uma matéria com esse mesmo tema (não a representatividade, mas o folclore) e acabei encontrando esta no google por acaso. Amei a matéria inteira, tanto sobre a representatividade da figura feminina quanto o uso da nossa rica mitologia que em nada deve às estrangeiras. Aliás, tem um mangá muito bacana que tem o saci como protagonista. Cheguei a ter meu nome vinculado à obra, mas, por conta de algumas complicações os capítulos desenhados por mim nunca foram publicados. Em breve vamos resolver esse equívoco, mas por enquanto da pra ler os dois primeiros capítulos que contam a saga do Saci.
    A propósito, gostaria de ver mais trabalhos do Studio Seasons com temáticas brasileiras.

    • Ficamos felizes que tenha gostado do post, Wagner. Nós pretendemos fazer algo com temáticas brasileiras, futuramente, mas há alguns projetos que devem ser finalizados antes.

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