Mulheres, Quadrinhos, Mídia… e Mangá

Aconteceu há pouco tempo: uma revista virtual resolveu escrever um artigo sobre quadrinistas nacionais. Muito bom, toda propaganda é interessante e bem-vinda, mas…

O inusitado é tão comum que a maioria das pessoas não percebe – a revista citou apenas profissionais homens como autores nacionais… mais uma vez.

Inusitado deveria ser, por estarmos em pleno século XXI, com mídias como a internet à mão onde pipocam informações referentes a quadrinhos, lançamentos e projetos, quando não blogs que oferecem artigos qualificados e entrevistas com profissionais. Os próprios artistas navegam no mundo das comunidades virtuais e são bem acessíveis oferecendo não apenas suas páginas pessoais, como seus sites e blogs de trabalho. Comum é, porque as pessoas não percebem o quanto a sociedade está atrasada em relação às suas posturas sociais e necessidades de revisitar conceitos, fazendo acreditar que mulheres não atuam na área de quadrinhos, afinal, isso é coisa de homens.

Não, antes de tudo, não é culpa dos autores “homens”, vamos deixar claro. Dezenas de profissionais nacionais não apenas apoiam como trocam ideias com autoras. Não vamos buscar culpados, vamos observar conceitos e analisar se estes padrões são nossos também. É mais construtivo.

Mulheres fazem quadrinhos e ponto. Deveriam existir dúvidas quanto a isso?

Isso aconteceu com Montserrat do Studio Seasons. Certa vez, ela foi a uma reunião com um profissional da área e conversaram muito sobre quadrinhos e autores. A certa altura essa pessoa disse a seguinte frase: “Então… precisamos marcar uma reunião com as mulheres que fazem quadrinhos para saber o que elas querem, o que pensam… esse lance de histórias com romances e florzinhas…” – Naquele momento, todos os anos de experiência como escritora e roteirista, todas as suas histórias, sua criatividade, seu estudo, conhecimento e leitura foram resumidos em duas palavras: romances e florzinhas. Ela continuou, tranquilamente, observando aquela pessoa e pensou duas coisas: “Deus, ele não sabe nada sobre mulheres que fazem quadrinhos e pior: ele acha que conseguirá reunir todas elas numa única mesa!”.

Esses dois pontos são vitais: o que fazemos e quem somos.

Mulheres podem e devem escrever sobre o universo que conhecem e dominam bem: essa é uma das regras de ouro da escrita… não importa qual seja seu universo e o seu sexo. Por dominar entendemos aquilo que é abrangido dentro de nossas experiências perceptivas, intelectuais, emocionais, educacionais e culturais. Ou seja, uma mulher poder escrever sobre qualquer coisa em potencial, assim como um homem.

“Tudo bem, vocês podem fazer quadrinhos… desde que sejam para vocês mesmas!”

Mulheres podem produzir para homens? Claro que sim. Não existe nada que impeça tal ato em nenhuma área das artes e não é diferente nos quadrinhos. Se existiram e existem homens que focam mulheres como público, a recíproca é igual. Somos totalmente capazes de compreender e produzir obras de qualquer estilo para qualquer público. “Ah! Mas homens escrevem X e mulheres escrevem Y” – Desculpe, ninguém escreve ou produz igual, nem pertencendo ao mesmo sexo. Isso se chama diversidade! Pessoas têm pontos de vista diferentes e sempre haverá quem deseje conhecê-los. Se homens produzem dentro de um padrão é porque, primordialmente, se propõem a seguir moldes comerciais e os aceitam – isso não tem nada a ver com superioridade sexual. A maior prova disso é que, no Japão, existem diversas mangakas consagradas como autoras de títulos focados para público masculino, do mesmo modo que muitos autores homens fizeram sucesso escrevendo para mulheres. É apenas uma questão de se adequar ao padrão e seguir suas regras, usando sua capacidade de percepção para reconhecer o perfil de seu leitor. Por outro lado, se um leitor não aprecia uma história a culpa não é da história ou do sexo do autor; o leitor simplesmente não se identificou com o conteúdo da obra e, naquele momento, aquilo não lhe trouxe o retorno esperado. Simples: ele deve procurar uma obra que lhe agrade.

Quantas vezes nós mesmas do Studio Seasons ouvimos pessoas nos perguntando: vocês fazem shoujo, não é? Pessoas, shoujo é um termo de classificação dos mangás japoneses focados para jovens mulheres até determinada faixa etária, não designador do sexo do/a autor/a! Por sermos mulheres, não somos, obrigatoriamente, autoras de shoujo.

Mas onde estamos? Espalhadas pelo Brasil e sim, atuando seja aqui ou no exterior. Roteiristas, ilustradoras, coloristas, capistas, quadrinistas de todos os estilos, alternativos, clássicos, mangás, etc! Agora, podem observar: quantas mídias falam de autoras mulheres? Quando são feitas listas, são citadas? Quantas vezes são mencionadas em entrevistas ou reportagens?

A mídia não conhece? Verdade… a mídia convencional não conhece, mas o que dizer da mídia especializada? Porque insistem em fazer listas e citar até alguns artistas que estão inativos há anos, mas se eximem de citar autoras ativas e a pior parte: quando o fazem, o mostram como exceção – “Observem, esta é a ave-do-paraíso esmeralda!” – São poucos os veículos que tratam as profissionais mulheres e sua existência com naturalidade (e geralmente são espaços comandados por mulheres. Notem). Será que o material feminino é tão pouco relevante que deva ser deixado de lado? O trabalho e esforço de mulheres pelo Brasil afora não deve ser lembrado e reconhecido? Nossos sonhos são diferentes dos sonhos dos homens? Alguém acredita nisso em pleno século XXI!?

O silêncio das mídias e a falta de interesse em valorizar trabalhos feitos por mulheres provocam a falta de informação e o efeito “invisível” aos quais todas são expostas constantemente. O preconceito não existe? Deve ser então, como o racismo, que também não existe no Brasil, afinal somos um país multirracial.

E é essa pluralidade de etnias e culturas que nos leva a outro ponto: a tentativa de criar a ditadura das “Belas Artes e dos traços nacionais”. Muitas pessoas conhecem casos de jovens que foram, literalmente, coagidos por professores de faculdades de Belas Artes a abandonar suas habilidades e estilos por não se encaixarem com a ordem vigente da arte Ocidental, ignorando totalmente o potencial do aluno. Não, não é culpa da arte. É que, simplesmente, algumas pessoas acreditam que são seres iluminados e tem o poder de definir o que é ou não é arte. Também é impressionante como certos grupos e suas “mídias-chapas” tentam criar uma mentalidade de unidade artística nos quadrinhos brasileiros. Todos devem desenhar segundo a mesma cartilha ou seguindo os mesmos conceitos, para que a arte nacional tenha uma “identidade”… isso é tão camisa verde que chega a ser assustador. Se você é um profissional, mas não segue essas regras, você está errado, não importa se opta por trabalhar com uma linguagem gráfica no qual se sente à vontade e sabe que pode gerar resultados melhores do que ficar forçando estilos com os quais não se identifica. Segundo os partidários do vamos-criar-um-traço-que-não-existe e fingir-que-não-temos-influências-externas esse autor deve ser execrável. Adotar um estilo diferente do que certos grupos defendem e tentar publicar no Brasil? – “Que ousadia!!!” Conseguir publicar no seu país? – “Como foi que isso aconteceu!? Quem deixou ‘isso’ passar!???”

Ah, sim, pode ficar pior… se você for mulher.

Liberdade de expressão é apenas um detalhe, no final das contas.

Gostaríamos de dizer que este artigo não é apenas dedicado as mulheres, ou as mulheres que desenham no estilo mangá, mas a todos os homens, profissionais contratados, reconhecidos, independentes e alternativos que não apenas acreditam na diversidade de estilos para enriquecer e enobrecer uma cultura, mas que acreditam na igualdade dos seres humanos.

Ah! A revista do começo do post? Ela não fez um artigo para falar das autoras alegando que eles não tinham espaço para tal (como uma revista virtual não tem espaço!? 0____o) – ela soltou uma lista (que foi redigida por uma pessoa interessada e mandou para a mesma). Esta foi decepada por uma avaliação totalmente “iluminada”, gerando uma lista de “avis rara”!

Sim, e nós continuaremos aqui, produzindo quadrinhos! ^_____^


Esta entrada foi publicada em Diário de Bordo. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

13 respostas a Mulheres, Quadrinhos, Mídia… e Mangá

  1. Carlos Vizeu disse:

    Uau!! Excelente post!
    Eu não sabia que o mercado nacional era tão ingrato para com as autoras…
    Vários de meus títulos de mangá preferidos são de autoras! – tanto shonen, quanto shoujo – É um absurdo haver esse tipo discriminação, chega ser uma piada

    Disse muita coisa que estava entranhada em minha garganta haha
    Eu fui um, que presenciei vários professores de faculdades de artes coagirem alunos a abandonar seus estilos simplesmente por ser ” um desenho de massa moderninho” – do tipo, dar nota mais altas a desenhos sem proporção, perspectiva e forma, literalmente; do que um desenho de mangá bem feito, em provas de desenho livre –
    É uma lástima…

    Eu sou um que consumo mangás de autoras – inclusive de vocês =D – e continuarei consumindo!

    continuem esse excelente trabalho! ^____^

  2. Ana disse:

    O que percebo é que o trabalho intelectual/artístico produzido por mulher é menos valorizado na sociedade. E quando se percebe que algum, ganhou prestigio e reconhecimento, tanto a obra quanto seu público é ridicularizado e descriminado, fazendo com que ninguém se atreva a produzir e apreciar coisas parecidas. Como exemplo temos a saga Crepúsculo, etc. Tudo o que é feito pelo e/ou para o universo feminino é diminuído pela “mídia”.

    • Carlos Vizeu disse:

      Isso é verdade,
      creio que o único que tenha escapado dessa discriminação foi Harry Potter, criado pela J. K Rowlling

  3. realmente muito bom!
    eu ja vi muito isso e é realmente muito triste esse preconceito… sim, é preconceito. em especial quando se trata do estilo… eu mesma desisti de fazer belas artes, pois vi, atraves de conhecidos a situação colocada, realmente triste =_= ainda bem que consegui me entender com o design grafico e agora virei pesquisadora de quadrinhos /o/
    bom, desejo tudo de bom para vcs, para nós, pois sei que temos um potencial enorme!!
    abraços!

  4. The Fool disse:

    Mas é isso mesmo que acontece.
    Enquanto o mangá em si não se popularizar entre as massas, todo traço semelhante a ele será marginalizado.
    Só ver alguns sites de quadrinhos por aí, os caras falam mundos e fundos de quadrinho americano e europeu e evitam mangás e isso abraça também quadrinhos nacionais em estilo mangá.
    Acerca do sexismo isso é ainda pior, a grande massa de artistas são homens e isso deixa uma falsa impressão que mulheres não fazem parte desse meio, o que não é verdade.
    Enfim, temos um longo caminho até colocar a coisa nos eixos.
    Força garotas, vocês tem seu valor!

  5. Maria disse:

    “Isso é verdade,
    creio que o único que tenha escapado dessa discriminação foi Harry Potter, criado pela J. K Rowlling”

    Infelizmente a própria autora disse que teve que abreviar seu nome para que achassem que era homem, só assim conseguiu publicar.

  6. Shirubana disse:

    Isso é lamentável! Eu faço Bl e sofro mais preconceito ainda. Quando o mangá e feito por menino qualquer semelhança com os mangás que existem é mera inspiração, mas de mulher é cópia e sem identidade.
    Uma vez me criticaram e ainda disseram que o mangá era feito por homem gay pra fangirl. Pior, quando a gente pede pra pessoa arrumar a pessoa diz que é choradeira e até antiprofissional da nossa parte. Pra meninos até pedem entrevista, mas pra nós meninas não. Não querem saber e nem buscar informação. Isso vem até de mulheres que infelizmente também são machistas e acham que nós temos que ser corretíssimas, meigas, santas e maternais até na obra. Os homens podem fazer qualquer personagem contraventor, mas nós mulheres não. O preconceito é tão grande que quando um autor japonês tem um traço shoujo todos dizem que é mulher. Pois acham que homem tem que desenhar traço grosseiro com história sangrenta. Quando descobrem que é homem ele é taxado de gay…aft!
    Não sei se me entendem, porém nós somos poucas mesmo trabalhando na área aqui no Brasil. Mas a gente também não quer ser reconhecida só por sermos mulheres e sim pela obra que fazemos. O mundo feminino ainda é muito discriminado pelos homens. Fazer florzinha é tido como bobo e fácil, mas eles não entendem que por trás disso existe uma técnica própria da arte e se não fizermos direito não atingimos nosso público que gosta de shoujo e BL. E as pessoas confundem mesmo personagem original com personagem inovador. Original é de criação própria, mas inovador é algo que não existia antes.
    O que muitos querem é criar um quadrinho inovador e não um mangá original.^^
    Beijos e adorei o desenho da Simone que ilustra o blog.

  7. Juliana disse:

    Parabéns pelo post, muito bom.

  8. Takai Seika disse:

    É uma pena… Esse texto mostra muito bem a realidade do Brasil nesse conceito.

    Tudo é “Shonen”. “Homens desenham mangá, mulheres desenham florzinhas”….
    No entanto eu sou uma mangaká que produz desde Shonen ai, passando por Shoujo, Echii… e Comecei com o Shonen…

    Falta de profissionalismo com atitudes assim…

    Eu gostaria que esse pais fosse mais eclético e desse espaço para as desenhistas de quadrinhos mulheres.

  9. sara disse:

    Impressionante, e hoje com tantos mangas shonen de sucesso no Japão feitos por mulheres (D. Gray-man e REBORN!, como exemplo).
    Realmente isso apenas reforça que a ideia de igualdade entre os sexos é apenas faxada.
    O pior é que quando a mídia “valoriza” o trabalho de mulheres que antes eram feitos apenas por homens, olha daquele jeito sensacionalista infantil como se mulher ocupando certos cargos hoje fosse algo inusitado, em pleno século XXI. Isto é um preconceito que, como tantos outros, não tenho muitas esperanças de que algum dia seja totalmente erradicado, infelizmente.

  10. Tereza disse:

    Nossa, é um negocio surreal!
    Eu, que sempre fui apaixonada pelo manga, fui diversas vezes obrigada a abandonar os traços na faculdade por causa do preconceito.. afinal.. manga nao é arte nem desenho.. é uma anomalia esquisita, segundo esses iluminados.

    Acho que falta liberdade em termos gerais.. para tudo nessa vida.
    Liberdade de fazer o que gosta e como gosta..

  11. Helena Stumpf Morelli disse:

    Eu gostaria de saber mais sobre as mangakás brasileiras. Na internet, só encontro material sobre a Érica Awano, mas sei que tem muito mais e que o pessoal ignora. Vocês tem uma lista dos nomes das integrantes do Studio Seasons?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *