Bakuman e o Deus ex Machina da Jump

 

Finalmente Bakuman chegou às bancas nacionais e, ao contrário de outras séries que analisamos, resolvemos propor um artigo mais focado no objetivo principal da obra.

Observamos diversas resenhas sobre a série e sabemos que existem aqueles que adoram e aqueles que odeiam a mesma. Qual deles pode estar certo? Todos, dentro de seus pontos de vista particulares. Mas a questão é: qual é o objetivo de Bakuman? É uma história sobre dois rapazes que desejam se tornar mangakas de renome, narrada como uma aventura semi-fantasiosa ou um guia de “como trabalhar para a Jump”?

Se abordarmos Bakuman apenas como uma aventura, perceberemos que ela segue os moldes tradicionais das fórmulas shounen, com o personagem A lutando para atingir seu objetivo e, para isso, tendo de transpor diversos obstáculos. O personagem A em questão é Mashiro e seu sonho é casar-se com Azuki; para isso, ele deve se tornar um mangaká com a ajuda de Akito. No início Mashiro não tem noção de seu sonho e de seu potencial apesar de gostar de Azuki e de ser um talentoso desenhista, e é aí que entra Akito – este sim tem o sonho de se tornar um autor famoso de mangás e, por esse motivo, funciona como a mola impulsionadora que ligará Mashiro ao mundo dos quadrinhos. A partir daí temos uma série de elementos que tornam Bakuman um verdadeiro conjunto de soluções “Deus ex machina”.

Para quem não sabe, o termo “Deus ex machina” refere-se sempre a uma inesperada, artificial ou improvável personagem, artefato ou acontecimento introduzido repentinamente numa história para resolver uma situação ou desembaraçar uma trama. Na Grécia antiga, muitas peças de teatro terminavam com um deus surgindo, suspenso, por um guindaste até o local da encenação. Esse deus, então, amarrava todas as pontas soltas da história. Desse modo, o termo sobreviveu até os dias de hoje.

E é justamente esse elemento grego que surge em boa quantidade em Bakuman:

Não basta Mashiro gostar de Azuki, deve haver algo que os una: Azuki quer ser dubladora, desse modo, Mashiro percebe que se Azuki ficar famosa, ele terá menos chances de ficar com ela. Isso o impulsionará a ficar famoso também;

O pânico de Mashiro se justifica com a história do tio que se tornou mangaká para poder ficar com uma garota, mas não conseguiu e, pasme, essa garota é a mãe de Azuki! Mashiro se vê pressionado psicologicamente a seguir o caminho do tio, com o objetivo de vencer onde este falhou;

Mashiro se declara para Azuki e ambos prometem que vão se casar somente quando ela dublar um desenho baseado num mangá dele. Até lá, só trocarão e-mails. Nem se falarão ao telefone! Bom… isso parece mais fetiche que amor, mas foi um Deus ex machina bem pelintra colocado para que a trama não se desvie do foco principal: Mashiro e Akito se tornarem mangakás na Jump. Tirando a mocinha do caminho, a trama se desenrola numa história sobre carreiras, apenas;

Porque seu tio morreu de exaustão de tanto trabalhar (a parte do corretivo é impagável!), imagina-se que a família de Mashiro será contra, mas não! O pai de Mashiro solta um “Homens têm sonhos que as mulheres não entendem.” Bem… isso é muito questionável! Mas, feminismos a parte, o autor se baseou no conceito “família japonesa” onde ter um bom emprego vale qualquer sacrifício, inclusive sua felicidade pessoal para o resto da vida! Numa sociedade machista, para as mulheres adaptadas a essa ideia, não é apenas importante ter um bom marido provedor, como ter um filho que se torne um futuro bom provedor para uma futura esposa. Nesse contexto, podemos entender a relação desigual dos pais de Mashiro e o Deus ex machina caiu como uma luva – e uma bomba machista. ^^ A ideia que Ohba joga no mangá talvez não seja machismo seu, mas o reflexo de um machismo social que ele mostra para justificar a solução do problema na trama;

O avô é notificado da decisão de Mashiro e, pasme de novo! Ele não estranha! Até dá as chaves do apartamento do tio falecido para Mashiro usar (pergunta que não quer calar: como uma família japonesa, num país em crise, mantém um apartamento e não faz nada com ele por anos!? Nem alugar? Imóveis são muito caros no Japão). Ele “apenas” ganhou um estúdio completamente montado e a família pagará suas contas até que ele possa se sustentar como mangaká! Achamos que esse deve ser o sonho de todo jovem aspirante a desenhista! Esse, é o melhor Deus ex machina de todo o primeiro volume. Mashiro e Akito ganham tudo de “mão beijada”: local, materiais, referências para estudo e contas pagas.

Bem, Deus ex machina é um recurso aceito em teatro, literatura e histórias em quadrinhos, contudo, usado em quantidade, soa como falta de imaginação e incapacidade para desenvolver tramas, mas será este o caso de Bakuman? Uma obra feita pelo mesmo roteirista de Death Note, seria tão cheia de pontos questionáveis, por nada?

Isso nos leva a segunda opção do início de nosso artigo. Se, por um lado, Bakuman surge como uma obra semi-fantasiosa para agradar um nicho de leitores que não apenas curtem ler, mas desenhar, ela também acaba se tornando um “guia de como trabalhar com a Jump” para muitos desses leitores que desejam ir além do “desenho por hobbie” e se tornar profissionais.

Se encararmos a obra por este ângulo, todos os Deus ex machina se justificam, pois o foco é mostrar como alguém pode entrar e se tornar um mangaká e a história dos personagens ganha um sentido menor, contudo… será que o material preenche as necessidades desse outro leitor?

Bakuman se foca, basicamente, no conceito de como “apostar” numa história e, talvez, fazer sucesso suficiente com ela. Nesse meio tempo os autores tentam, tentam e tentam. Essa é a meta da obra: ensinar como sobreviver no mundo editorial. Algumas coisas que Bakuman fala procedem, contudo, os editores da Jump omitiram um ponto muito importante: a iniciação.

Como a obra foca em editar um título, ela ignora o início que é justamente a parte mais complicada; aprender a desenhar, conhecer materiais, saber diagramar, coisas assim.

Nota-se que mesmo Akito não conhecendo certos detalhes, tem Mashiro que o guia pelo mundo do mangá por causa de sua experiência com o tio e é aí que percebemos o ponto fraco: Mashiro já sabe quase tudo da parte técnica. Ele desenha, conhece conceitos de name, aplicação de retículas, tinta, materiais, composição (e o que ele não sabe, aprende rápido, como usar um bico de pena, por exemplo!). A única coisa que lhe falta é uma história!

Só que na vida real não é assim, essa “etapa” eliminada na obra é aquilo que mais derruba iniciantes! Se o aspirante não se disciplina já no processo de desenho e roteiro, não consegue passar nas outras etapas!

Desse modo, a Jump quase passa um recado ao leitor: “Para chegar até nós, não venha cru. Não te ensinaremos nada, só te orientaremos se você já estiver preparado para ser um desenhista.”

E desse mesmo modo, a Jump também suaviza muito do que acontece no mundo editorial, contando uma história que é meio fantasia, meio um guia.

Mas, o mais interessante é perceber que uma revista como a Jump se preocupou em publicar um título com esse tema. Sim, não é a primeira vez que se faz isso e a própria série menciona esse detalhe quando Akito lê “A Condição de ser um homem” de Ikki Kajiwara, falando sobre as cinco regras para um mangaká. Isso nos aponta para um indicativo de que, de tempos em tempos, a Jump tem de atrair leitores que gostam de desenhar e incitá-los a se tornarem mangakás. E, isso significa…? Que o mercado está fraco de autores? Que de tempos em tempos as fórmulas precisam ser ensinadas ou relembradas? Que a Jump necessita de mais gente porque existe um desgaste natural? Quando seus atuais carros-chefe saírem, ela pode levar um tombo comercial e, desde já precisa de talentos que sejam treinados para preencher estas vagas? Pode ser tudo isso.

Mas é um indicativo também de que a sociedade está mudando e toda vez que ela muda, se faz necessário atrair pessoas para que continue uma tradição. E que maneira mais atraente de fazer isso do que colocando uma história fantasiosa sobre algo real? A Jump precisa de autores que sigam seu perfil e suas regras e ela criou Bakuman para isso. Tudo ali é o que os editores da Jump desejam e como eles desejam.

Sobre o público brasileiro que lê Bakuman, ele deve estar ciente de que a obra fala do mercado japonês e de uma antologia japonesa. Não é nossa realidade, nem são nossos leitores ou nossa cultura. Pode existir um conceito editorial como o da Jump no Brasil? Sim, mas os números de vendagem serão bem diferentes e os leitores também.

Também é importante que o leitor compreenda que a ausência das etapas mencionadas na obra é justamente o que faz mais falta no Brasil; esse processo de estudo e preparação para criação e confecção de um trabalho. Detalhes como materiais, produção e conhecimento sobre direitos autorais são muito vagos aqui e precisam ser compreendidos dentro do nosso âmbito nacional.

Certos conceitos colocados pelos personagens são baseados em opiniões particulares e não em “verdades de mercado”. Quando Akito cita que “se alguém pode viver só de uma obra, já é genial por si só” força as fronteiras da fantasia – isso está mais para planejamento comercial que genialidade. Genialidade seria emplacar várias obras de extremo sucesso em sequência e pouquíssimos mangakás conseguiram fazer isso em toda história do mangá japonês. O mais comum é sempre haver uma baixa depois de um título de sucesso. Viver dos produtos gerados por uma série popular é um planejamento de mercado e uma consequência. Se um autor se prende apenas a isso e estaciona, pode viver bem, mas artística e criativamente falando, também pode se enterrar vivo.

Aliás, Bakuman parece gostar de vender fácil a ideia de “mangaká de sucesso = gênio”. Isso é bem Jump, mas muito pouco real. O que leva uma obra a se tornar um sucesso de mercado está muito mais ligado a tendências, comportamentos sociais e culturais do que a extrema criatividade de um artista, embora esse seja um item indispensável. Infelizmente muita coisa boa não recebe o destaque que merecia no Japão, assim como muita coisa duvidosa pode “bombar” pelos motivos mais estranhos. Nesse ponto, o conceito de “sorte” e “aposta” de Mashiro não é tão deslocado, mas desbanca o conceito de gênio vendido na mesma história pela Jump, a não ser que genialidade para eles signifique ser sortudo!

A genialidade de um mangaká está em “observar” as tendências culturais e conseguir filtrar elementos que possam fazer sua obra se tornar um hit. No entanto, num mercado de consumo como o atual, é difícil manter um hit popular por muito tempo, portanto, vale muito mais um autor que possa jogar séries de boa vendagem, em sequência, do que um que seja um estouro e depois apague como fogo de artifício. Grandes hits podem dar boas vendas e gerar produtos (Naruto, One Piece e Bleach não estão sendo esticados à toa!), mas depois deixam grandes vãos, se não houver ninguém para ocupar o lugar. No Ocidente, isso é mais evidente com a queda nas vendas porque os leitores se cansaram de acompanhar algumas dessas séries infindáveis.

Assim como para os personagens de Bakuman o trabalho para um aspirante não é fácil e exige muito mais raciocínio e capacidade criativa que apenas sonho. A questão final é: de que maneira o leitor pretende encarar Bakuman? Porque, no final das contas, ele é apenas uma ficção sobre qualquer aspecto que se olhe.

 

(P.S.: E sim! Nós já lemos Bakuman.)

 

Bakuman – vol. 01   JBC
Autor: Tsugumi Ohba e Takeshi Obata
Formato: 13,5x 20,5 cm
Páginas: 208 páginas
Periodicidade: mensal
Preço: R$ 10,90


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32 respostas a Bakuman e o Deus ex Machina da Jump

  1. O problema dos autores de Bakuman, não é que a sociedade japonesa é machista, mas que eles conseguem ser, vide Death Note, mais machistas que a sociedade em si. Eu realmente me desanimo em ler esse mangá por conta desse sub-texto misógino – acho que eles são mais que machistas – que orienta a cabeça desses sujeitos.

    • O contexto do machismo é algo que daria um artigo próprio. Como analisamos Bakuman como um todo, não queríamos fazer um desvio tão grande porque o tema é extenso.

  2. Com essa matéria, eu fiquei bastante curiosa sobre esse mangá e pretendo comprá-lo. Apesar das diferenças entre os mercados editoriais bem diferentes, acho que será interessante conhecer um pouco da situação do Japão, mesmo que de forma fantasiosa. O fator machismo não conta muito pra mim, me espanta mais o uso desenfreado de Deus Ex-Machina.

    Anyway, comprarei pra tirar minhas próprias conclusões sobre a história! Gostei muitíssimo da matéria *_*

  3. Adorei a matéria. Já li um pouco de Bakuman no passado e achei bem interessante, apesar dos exageros e do excesso de sorte dos protagonistas…

    Agora o que mais me chamou a atenção na matéria foi o conceito Deus ex machina, não conhecia e adorei saber. =)

  4. O Judeu Ateu disse:

    Antes de mais nada gostaria de dizer que este foi o melhor review de Bakuman que já li até agora.

    Quanto a falta de profundidade e criatividade, concordo plenamente e vou além, Bakuman é o maior erro editorial da revista, melhor desenhista que ela possuiu desperdiçado dessa forma, discordo no entanto quanto a afirmação de que a obra tenha como objetivo reacender a vontade de desenhar mangás no japão.

    Acredito alias que o mangá traz uma sensação oposta, aqueles dois mal conseguem publicar uma serie e quando conseguem não vemos um pingo do dinheiro ganho, também não teria como já que eles não param de trabalhar nem um segundo. Se algum dia tive vontade de escrever mangas (nunca) Bakuman me afastou totalmente deste sonho.

    Você diz muito que a Jump faz, a Jump camufla, a Jump quer, no entanto o correto não seria o Ohba faz, o Ohba camufla, o Ohba quer? Essa é um mangá de um (dois) mangáka e não de uma editora. Podemos até fazer um “estudo” por traz da obra e analisar a falta de autores e por consequência a grande dependência da editora pelos mangás intermináveis, mas daí até bolar uma teoria da conspiração em cima de um mangá medíocre já acho um exagero.
    Ohba escreve o que escreve porque acha que vai vender, não porque quer agradar a Jump….acho.

    Ainda assim ótima análise, finalmente alguém falando o que precisa ser falado sobre esse mangá XD

    • Não se trata exatamente de uma teoria da conspiração, mas de um procedimento costumeiro das grandes editoras. Todo material passa por pré-aprovação e, nesse momento, aquilo que o mangaká quer e pensa, passa pela “peneira” do editor. Até um mangá como Spice Pink, que mostra o universo de uma mangaká aborda essa questão de maneira sutil. Quanto ao dinheiro, é coisa que não será dita com facilidade, pois, no Japão, não é de bom tom discutir questões monetárias em público. Claro que os desenhistas de Bakuman recebem como qualquer desenhista, mas a questão é que simplesmente eles desejam ser famosos e este é o ponto principal. Para um leitor japonês, que conhece estes aspectos culturais, isso é aceitável e não o afastaria da proposta.
      Agradecemos sua opinião!

  5. Alexandre disse:

    O curioso é que no capítulo dessa semana saiu justamente a explicação do nº4 e nº5. E é característica do Ohba voltar muito adiante a elementos pregressos que já foram meio esquecidos, e amarrá-los muito bem.

    • Ele teria de dar explicações em algum momento, principalmente se foi cobrado pelo público. As soluções simplistas colocadas no começo da obra, provavelmente, têm a ver com a necessidade de entrar logo na “ação” da trama, mas mesmo assim soaram estranhas.

    • Jussara disse:

      Achei uma explicação Deus Ex Machina também. Meio como se o autor disesse “que saco! ficam enchendo o saco por causa do fato da familia ter levado tudo numa boa? Deixa eu inventar um motivo agora também!”

      Alias este lance, mesmo ‘explicado” ficou ainda mal explicado – tipo, poucos seres humanos pensariam DAQUELA forma. mais ou menos o que acontecia com Death Note – o pensamento e as conclusões que os personagens “genios” chegavam para um lutar contra o outro eram tão contra-intuitivas que não faziam sentido nenhum! Só dentro daquele universozinho. – e usando a desculpa “ah, eles são genios, pensam em outra esfera de realidade” para justificar tudo.

      Ohba é um engodo que se finge de bom escritor. Ele só engana moleques leitores da Jump mesmo… no fundo ele é um péssimo escrito e péssimo em desenvolvimento de personagem.

  6. Tanko disse:

    O texto ficou muito interessante, eu curto Bakuman justamente para ler umas curiosidades, pois no quesito realismo ele peca demais. O que me desanima na série, além do machismo, é que novamente temos um romance pouco crível e que me dá sono.

    Depois não entendem porque prefiro o Boy’s Love/Yaoi Sekai-Ichi Hatsukoi. ^^

  7. Jussara disse:

    Sobre o que comentou o “judeu ateu” posso dizer que a culpa é de ambos: da Jump e do Ohba (que é MUITO machista sim, se você comparar com outros autores de mangá shonen que estão inseridos no mesmo contexto de sociedade, mas não pegam tão pesado assim…).

    Me irrita no mangá esta lambeção de saco do “método Jump” embora, é óbvio, seja esperado, afinal é um mangá publicado por esta editora e ela quer mais é mostrar o quanto ela é boa. Mas repare que quem não segue o “metódo Jump” sempre se ferra e chega até memso a virar um “vilão” na história (como um certo personagem meio Kira que tem aparecido nos últimos capitulos do mangá recém-publicados…SPOILER). O único momento em que se questionou um pouquinho só o papel do editor em sempre guiar o autor é usada a desculpa do “editor incompetente”. Ou seja: o problema não é o método, mas sim a burrice do indivíduo.

    Se até o momento que os meninos enfim conseguiram publicar um mangá na Jump (“enfim”? para mim foi rápido demais, se quer saber!) eu ainda conseguia relevar muita coisa fantasiosa colocada lá (relacionamento bizarro platônico? … err… deve ser coisa de japonês, eu acho…) agora simplesmente não tinha mais! A horrenda fase que se seguiu logo após o ínício da publicação do mangá (e que mesmo entre os fãs mais fervoroso acredito que TODOS concordaram que foi uma calamidade…) foi a gota d’água em termos de credibilidade.
    A partir daí comecei a ler Bakuman apenas como se ele fosse um Dragon Ball Z com mangakas no lugar de lutadores… mas sinceramente… encheu! Encheu muito! E atualmente eu não leio mais Bakuman, exceto uma vez ou outra quando pego uma grande quantidade de capítulos de baciada só para saber emq ue é andam as coisas… para me arrepender de ter perdido tempo de novo.

    Não sei mais quem é o público-alvo deste mangá: os aspirantes a mangaká é que não devem ser mais! Acho incrível que esta joça continue vendendo bem… imagino que seja pura osmose da fama dos criadores de Death Note e nada mais.

    • Alexandre disse:

      O pior é que apesar de eu reconhecer que Death Note é muito bem-feito, nunca liguei muito para a história. Cheguei a abandonar no meio do ultimo volume e muito tempo depois, voltar meio por acaso pra fechar as pontas.

  8. Eu não considero o argumento do Deus Ex Machina válido, porque as circunstâncias são os pontapés iniciais da história. Faria sentido se lááá no final, ou no final de uma trama, algo inesperado e improvável acontecesse para resolver um enrosco, o que não é o caso do volume 1, ainda 🙂

    • Jussara disse:

      Eu acho válido porque TUDO começou a dar MUITO certo logo no começo!

    • Márcio, só para esclarecer o conceito de Deus ex machina indo além do que você citou:
      A noção de Deus ex machina também pode ser aplicada a uma revelação dentro de uma história vivida por um personagem, que envolva realizações pessoais complicadas, às vezes perigosas ou mundanas e, porventura, seqüência de eventos aparentemente não relacionados que conduzem ao ponto da história em que tudo é conectado por algum conceito profundo. Essa intervenção inesperada e oportuna visa a dar sentido à história no lugar de um evento mais concreto na trama
      Isto consta no Wikipédia, mas foi extraído da obra: Dictionary of the theatre: terms, concepts, and analysis By Patrice Pavis, Christine Shantz. Não é opinião sem base.
      Como você pode ver, o conceito se estende não apenas ao fim de uma história, fisicamente, mas ao fim de uma situação. Além disso, o mangá usa um sistema de 3 e 4 tempos que se originam do teatro e da literatura, fazendo com que toda situação criada tenha um começo, meio e fim, para que outra situação apareça na sequência, num ciclo constante. Cada ”fim” de situação, em si, permite o uso de Deus ex machina.
      O termo Deus ex machina também pode ser aplicado como forma de falar de coisas com soluções inverossímeis, num contexto geral.

    • Soni disse:

      O texto ficou muito bom, mas concordo com o Márcio. Não confundam Deus Ex Machina com o fato do personagem ter uma vida fácil. Por que ele não pode ser filhinho de papai? Tenho muitos amigos que tem tudo, falta apenas uma história mesmo.
      A nossa realidade faz com que a gente simpatize com pessoas que se erguem do zero. Só isso. O personagem ter tudo não é erro de roteiro, nem fuga da realidade. Está mais para uma Cinderela, a fada é o avô dele.

      • Soni, em nenhum momento falamos que o personagem deveria ter uma vida difícil. Pelo que a obra mostra, tanto o desenhista como roteirista fazem parte da classe média japonesa, e mesmo que eles tivessem uma vida mais “rica”, receber um apartamento do nada seria uma solução Deus ex machina. O conceito de Deus ex machina se refere sempre a uma solução simplista, antinatural ou inesperada, independentemente de sermos realistas ou fantasiosos (não tem nada a ver com riqueza ou pobreza). Não é considerado errado usar um Deus ex machina, mas em excesso, pode comprometer a qualidade de uma história. Em Bakuman, temos uma quantidade razoável deles nesse primeiro volume e, mesmo que Oda tenha dado soluções posteriores (alguns anos depois), a primeira impressão que se tem ao ler é o efeito Deus ex machina com soluções rápidas e simplistas. Isso tem a ver com construção de roteiro e não com a vida real.
        Abraços ^__^

  9. Alexandre disse:

    Bom, quanto ao terceiro item, eu acho que realmente não iria querer ler um mangá de romance. É como foi dito: um ato calculado pra evitar que a história, em algum eventual momento de baixa, migrasse para o romance. E olha que isso chegou a acontecer em um arco inteiro: foi de longe o pior momento da série.

  10. Monique disse:

    Acho esse um dos melhores reviews de Bakuman feitos na blogosfera brasileira, gostei mais da análise de vocês pois me parece mais lúcida e ponderada, a série tem seus méritos mas muitos defeitos também; interessante a questão apontada do uso de “Deus ex maxina” na trama, bem… para mim, sempre pareceram um amontoado de ‘MacGuffins’ esperando para serem revelados lá pra frente quando a popularidade estivesse em baixa.

  11. Kwijibo disse:

    Adendo, alguns desses “deus ex machinas” foram explicados no último capítulo de bakuman que saiu no Japão, basicamente sobre porque ninguém impediu o Mashiro, e porque ainda guardavam a chave do estúdio

  12. Tereza disse:

    Adorei o post, achei muito inspirador e ja comprei o primeiro volume do mangá para ter minha própria opinião. No entanto voces tocaram em um ponto que me deixa muito preocupada: o preparo técnico para um desenhista (quadrinista ou mangaká) aqui no Brasil.

    Existe algum curso superior? Se nao, quais as escolas mais bem preparadas? Ja fiz alguns cursos de desenho mas nao vejo muito cuidado técnico na hora de ensinar.. parece que os alunos estudam desenho apenas por hobbie. E estágio? Como se aproximar desse mercado no Brasil?

    Eu, que sempre quis ser mangaká (e hoje sou designer), fico um pouco desiludida por nao saber que caminho devo tomar.

    Bjs 🙂

    • Que saibamos não há nenhum curso superior no Brasil focado em mangá. A maioria das escolas, realmente, só ensina desenho e deixa a parte técnica de lado. É mais fácil adquirir este tipo de informação através de material importado, livros e textos especializados na internet. Também não há, até o momento, estágios no Brasil. Um estágio não é vantajoso para o profissional que está recebendo o estudante (leia mais sobre isso no artigo Assistentes x Aprendizes x Profissionais) por uma série de motivos. Não é um caminho fácil. ^__^

  13. Euripides disse:

    Gostei da matéria, mas vcs estão vendo Deus Ex Machina onde eles não existem.

  14. Euripides disse:

    Digo, no sentido do conceito de Deus Ex Machina mesmo.

  15. vician disse:

    Gosto do trabalho de vocês, mas achei este artigo desnecessário. Se afinal de contas, se trata de uma obra de ficção, pra quê se preocupar se algo não é muito real ou se isso, ou aquilo “força as fronteiras da fantasia”?

    Não existe obra unanime. Sempre há algo que agrade ou não. Como seria, se algum autor internacional criticasse a obra de vocês e surgisse um troller, que sem nenhum argumento, taxasse o seu trabalho como “medíocre”? Ou ainda outra, que cheia de rancor e preconceito dissesse que “deve ser coisa de brasileiro”, ou pior ainda, que “deve ser coisa de mulher brasileira”? Como vocês se sentiriam?

    Em minha opinião, é deselegante criticar o trabalho de colegas de profissão, nem os críticos fazem isso (criticar a crítica de outros críticos).

    • Caro Vician,

      Antes de mais nada, agradecemos sua opinião e ficamos felizes que aprecie nosso trabalho.

      Realmente, concordamos que “criticar a crítica de outros críticos” é algo, no mínimo, estranho, além de ser uma repetição gramatical.

      Felizmente, este post está inserido dentro das análises de trabalhos que fazemos para estudantes e não se trata de uma crítica. Se você nos acompanha, deve saber que, durante mais de dez anos, nós lecionamos sobre linguagem gráfica de mangá e, por isso, as pessoas se interessam por artigos que toquem em pontos estruturais. Se observar com cuidado, verá que estamos falando de conceitos de roteiro, tanto que nem nos aprofundamos em temas como o machismo do autor, que foi levantado pelos que leram o post. A função não é fazer simples críticas como “é bom ou ruim”. Em nenhum momento isso entrou em questão – antes, a proposta é falar de conceitos de solução de roteiro como Deus ex machina que, sim, são muito importantes para os que querem produzir. Falar sobre estruturas e possibilidades de construção de texto de outros autores está bem longe de ser antiprofissional ou deselegante.

      Sim, é uma ficção, mas conhecemos jovens que estão levando a obra como parâmetro de trabalho, ao pé da letra, e isso sugere atenção. A partir do momento que trabalhamos ensinando sobre linguagem gráfica e orientando sobre possibilidades de trabalho no mercado nacional é nosso dever ético não omitir certas coisas.

      Em nenhum momento dissemos que a obra é ruim. Dissemos sim, que ela possui soluções simplistas no primeiro volume que podem ser toleráveis por uma série de motivos já mencionados. Deus ex machina não chega a ser um defeito terrível (em alguns casos, até funciona como qualidade), mas aponta para problemas de solução de conteúdo. Isso é completamente normal.

      Sobre elogios, críticas e trolls: nós lidamos com isso há mais de uma década e acredite: faz parte do cotidiano. Nós sabemos muito bem viver com isso sem nos abalar em nosso trabalho. Pode ficar sossegado.^____^

  16. Euripides disse:

    Não acho correto falar de Deus Ex Machina nessas condições. As situações são forçadas e vocês apontaram coisas interessantes, sim, mas nem todas podem ser consideradas Deus Ex Machina, uma vez que não chegam a efetuar desenlaces propriamente ditos, antes introduzem novas tensões. E por mais forçadas que possam parecer as situações, elas não nascem ex nihilo – como seria conveniente a um ex machina.

    O mais correto seria pensar em termos de Suspensão da Descrença: uma vez que até mesmo um leitor aqui comenta que essas situações aparentemente inverossímeis serão retrabalhadas ao longo do mangá (não li de qual modo: não quero spoilers!).

  17. Deborah disse:

    Bom, eu acho bakuman um manga fantástico! Pô! É com certeza uma das minhas maiores inspirações! Sei lá, quanto mais eu leio mais vontade eu tenho de ter um editor!Lol… Eu gostaria que o mercado de quadrinhos nacional fosse tão grande como o do japão! Vocês tem noção? Estamos falado de só uma revista! E lá tem varias! Porrãaan… Não sei se é por que eu sou mais oriental que ocidental mas, acho o suficiente, a historia em si não me interessa então foda-se se o saiko tem tudo facil, eu sou boa desenhista e me diz, pra que existe escola de artes (ou algo assim) fora que é mais difícil saber sobre como criar um roteiro do que desenhar! Pelo menos pra mim é assim. Mas o texto é ótimo! Me trouxe algumas formas de visões diferentes. Parabéns!

  18. Leonardo Leão disse:

    Já estava lendo Bakuman e portanto achei esta análise excelente, pois mencinou muitas coisas que eu realmente não tinha percebido. Porém achei prudente vocês deixarem claro no começo da análise que tudo depende de como se enxerga a obra, como ficção ou um guia para se tornar um mangaka. Eu leio Bakuman como um misto, uma história fantasiosa, porém com várias dicas bacanas. A principal é que ninguém tem sucesso se não der o sangue, afinal mesmo com estas soluções Deus ex machina para impulsionar a história, o manga vende a ideia que o principal fator de sucesso dos garotos é a sua perseverança e o trabalho duro. Claro que este conceito aparece em vários shonens, mas é legal ver isso ser aplicado com mangakas, pois aí se separa o joio do trigo. Quem tiver força de vontade pode chegar lá, quem acha que basta ter um estúdio pago pelos pais, mas não se esforçar, vai morrer na praia. Abraços!

  19. Tereza disse:

    Sera que existem outros titulos como esse, mas voltados para o manga jovem feminino? 😀

    • Existem, mas com ressalvas. A maioria dos títulos voltados para o público feminino enfatiza muito mais o aspecto emocional e os relacionamentos das personagens, que a profissão de mangaka em si. Um exemplo é Spicy Pink, que foi publicado aqui.

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