Bakuman e o Deus ex Machina da Jump

 

Finalmente Bakuman chegou às bancas nacionais e, ao contrário de outras séries que analisamos, resolvemos propor um artigo mais focado no objetivo principal da obra.

Observamos diversas resenhas sobre a série e sabemos que existem aqueles que adoram e aqueles que odeiam a mesma. Qual deles pode estar certo? Todos, dentro de seus pontos de vista particulares. Mas a questão é: qual é o objetivo de Bakuman? É uma história sobre dois rapazes que desejam se tornar mangakas de renome, narrada como uma aventura semi-fantasiosa ou um guia de “como trabalhar para a Jump”?

Se abordarmos Bakuman apenas como uma aventura, perceberemos que ela segue os moldes tradicionais das fórmulas shounen, com o personagem A lutando para atingir seu objetivo e, para isso, tendo de transpor diversos obstáculos. O personagem A em questão é Mashiro e seu sonho é casar-se com Azuki; para isso, ele deve se tornar um mangaká com a ajuda de Akito. No início Mashiro não tem noção de seu sonho e de seu potencial apesar de gostar de Azuki e de ser um talentoso desenhista, e é aí que entra Akito – este sim tem o sonho de se tornar um autor famoso de mangás e, por esse motivo, funciona como a mola impulsionadora que ligará Mashiro ao mundo dos quadrinhos. A partir daí temos uma série de elementos que tornam Bakuman um verdadeiro conjunto de soluções “Deus ex machina”.

Para quem não sabe, o termo “Deus ex machina” refere-se sempre a uma inesperada, artificial ou improvável personagem, artefato ou acontecimento introduzido repentinamente numa história para resolver uma situação ou desembaraçar uma trama. Na Grécia antiga, muitas peças de teatro terminavam com um deus surgindo, suspenso, por um guindaste até o local da encenação. Esse deus, então, amarrava todas as pontas soltas da história. Desse modo, o termo sobreviveu até os dias de hoje.

E é justamente esse elemento grego que surge em boa quantidade em Bakuman:

Não basta Mashiro gostar de Azuki, deve haver algo que os una: Azuki quer ser dubladora, desse modo, Mashiro percebe que se Azuki ficar famosa, ele terá menos chances de ficar com ela. Isso o impulsionará a ficar famoso também;

O pânico de Mashiro se justifica com a história do tio que se tornou mangaká para poder ficar com uma garota, mas não conseguiu e, pasme, essa garota é a mãe de Azuki! Mashiro se vê pressionado psicologicamente a seguir o caminho do tio, com o objetivo de vencer onde este falhou;

Mashiro se declara para Azuki e ambos prometem que vão se casar somente quando ela dublar um desenho baseado num mangá dele. Até lá, só trocarão e-mails. Nem se falarão ao telefone! Bom… isso parece mais fetiche que amor, mas foi um Deus ex machina bem pelintra colocado para que a trama não se desvie do foco principal: Mashiro e Akito se tornarem mangakás na Jump. Tirando a mocinha do caminho, a trama se desenrola numa história sobre carreiras, apenas;

Porque seu tio morreu de exaustão de tanto trabalhar (a parte do corretivo é impagável!), imagina-se que a família de Mashiro será contra, mas não! O pai de Mashiro solta um “Homens têm sonhos que as mulheres não entendem.” Bem… isso é muito questionável! Mas, feminismos a parte, o autor se baseou no conceito “família japonesa” onde ter um bom emprego vale qualquer sacrifício, inclusive sua felicidade pessoal para o resto da vida! Numa sociedade machista, para as mulheres adaptadas a essa ideia, não é apenas importante ter um bom marido provedor, como ter um filho que se torne um futuro bom provedor para uma futura esposa. Nesse contexto, podemos entender a relação desigual dos pais de Mashiro e o Deus ex machina caiu como uma luva – e uma bomba machista. ^^ A ideia que Ohba joga no mangá talvez não seja machismo seu, mas o reflexo de um machismo social que ele mostra para justificar a solução do problema na trama;

O avô é notificado da decisão de Mashiro e, pasme de novo! Ele não estranha! Até dá as chaves do apartamento do tio falecido para Mashiro usar (pergunta que não quer calar: como uma família japonesa, num país em crise, mantém um apartamento e não faz nada com ele por anos!? Nem alugar? Imóveis são muito caros no Japão). Ele “apenas” ganhou um estúdio completamente montado e a família pagará suas contas até que ele possa se sustentar como mangaká! Achamos que esse deve ser o sonho de todo jovem aspirante a desenhista! Esse, é o melhor Deus ex machina de todo o primeiro volume. Mashiro e Akito ganham tudo de “mão beijada”: local, materiais, referências para estudo e contas pagas.

Bem, Deus ex machina é um recurso aceito em teatro, literatura e histórias em quadrinhos, contudo, usado em quantidade, soa como falta de imaginação e incapacidade para desenvolver tramas, mas será este o caso de Bakuman? Uma obra feita pelo mesmo roteirista de Death Note, seria tão cheia de pontos questionáveis, por nada?

Isso nos leva a segunda opção do início de nosso artigo. Se, por um lado, Bakuman surge como uma obra semi-fantasiosa para agradar um nicho de leitores que não apenas curtem ler, mas desenhar, ela também acaba se tornando um “guia de como trabalhar com a Jump” para muitos desses leitores que desejam ir além do “desenho por hobbie” e se tornar profissionais.

Se encararmos a obra por este ângulo, todos os Deus ex machina se justificam, pois o foco é mostrar como alguém pode entrar e se tornar um mangaká e a história dos personagens ganha um sentido menor, contudo… será que o material preenche as necessidades desse outro leitor?

Bakuman se foca, basicamente, no conceito de como “apostar” numa história e, talvez, fazer sucesso suficiente com ela. Nesse meio tempo os autores tentam, tentam e tentam. Essa é a meta da obra: ensinar como sobreviver no mundo editorial. Algumas coisas que Bakuman fala procedem, contudo, os editores da Jump omitiram um ponto muito importante: a iniciação.

Como a obra foca em editar um título, ela ignora o início que é justamente a parte mais complicada; aprender a desenhar, conhecer materiais, saber diagramar, coisas assim.

Nota-se que mesmo Akito não conhecendo certos detalhes, tem Mashiro que o guia pelo mundo do mangá por causa de sua experiência com o tio e é aí que percebemos o ponto fraco: Mashiro já sabe quase tudo da parte técnica. Ele desenha, conhece conceitos de name, aplicação de retículas, tinta, materiais, composição (e o que ele não sabe, aprende rápido, como usar um bico de pena, por exemplo!). A única coisa que lhe falta é uma história!

Só que na vida real não é assim, essa “etapa” eliminada na obra é aquilo que mais derruba iniciantes! Se o aspirante não se disciplina já no processo de desenho e roteiro, não consegue passar nas outras etapas!

Desse modo, a Jump quase passa um recado ao leitor: “Para chegar até nós, não venha cru. Não te ensinaremos nada, só te orientaremos se você já estiver preparado para ser um desenhista.”

E desse mesmo modo, a Jump também suaviza muito do que acontece no mundo editorial, contando uma história que é meio fantasia, meio um guia.

Mas, o mais interessante é perceber que uma revista como a Jump se preocupou em publicar um título com esse tema. Sim, não é a primeira vez que se faz isso e a própria série menciona esse detalhe quando Akito lê “A Condição de ser um homem” de Ikki Kajiwara, falando sobre as cinco regras para um mangaká. Isso nos aponta para um indicativo de que, de tempos em tempos, a Jump tem de atrair leitores que gostam de desenhar e incitá-los a se tornarem mangakás. E, isso significa…? Que o mercado está fraco de autores? Que de tempos em tempos as fórmulas precisam ser ensinadas ou relembradas? Que a Jump necessita de mais gente porque existe um desgaste natural? Quando seus atuais carros-chefe saírem, ela pode levar um tombo comercial e, desde já precisa de talentos que sejam treinados para preencher estas vagas? Pode ser tudo isso.

Mas é um indicativo também de que a sociedade está mudando e toda vez que ela muda, se faz necessário atrair pessoas para que continue uma tradição. E que maneira mais atraente de fazer isso do que colocando uma história fantasiosa sobre algo real? A Jump precisa de autores que sigam seu perfil e suas regras e ela criou Bakuman para isso. Tudo ali é o que os editores da Jump desejam e como eles desejam.

Sobre o público brasileiro que lê Bakuman, ele deve estar ciente de que a obra fala do mercado japonês e de uma antologia japonesa. Não é nossa realidade, nem são nossos leitores ou nossa cultura. Pode existir um conceito editorial como o da Jump no Brasil? Sim, mas os números de vendagem serão bem diferentes e os leitores também.

Também é importante que o leitor compreenda que a ausência das etapas mencionadas na obra é justamente o que faz mais falta no Brasil; esse processo de estudo e preparação para criação e confecção de um trabalho. Detalhes como materiais, produção e conhecimento sobre direitos autorais são muito vagos aqui e precisam ser compreendidos dentro do nosso âmbito nacional.

Certos conceitos colocados pelos personagens são baseados em opiniões particulares e não em “verdades de mercado”. Quando Akito cita que “se alguém pode viver só de uma obra, já é genial por si só” força as fronteiras da fantasia – isso está mais para planejamento comercial que genialidade. Genialidade seria emplacar várias obras de extremo sucesso em sequência e pouquíssimos mangakás conseguiram fazer isso em toda história do mangá japonês. O mais comum é sempre haver uma baixa depois de um título de sucesso. Viver dos produtos gerados por uma série popular é um planejamento de mercado e uma consequência. Se um autor se prende apenas a isso e estaciona, pode viver bem, mas artística e criativamente falando, também pode se enterrar vivo.

Aliás, Bakuman parece gostar de vender fácil a ideia de “mangaká de sucesso = gênio”. Isso é bem Jump, mas muito pouco real. O que leva uma obra a se tornar um sucesso de mercado está muito mais ligado a tendências, comportamentos sociais e culturais do que a extrema criatividade de um artista, embora esse seja um item indispensável. Infelizmente muita coisa boa não recebe o destaque que merecia no Japão, assim como muita coisa duvidosa pode “bombar” pelos motivos mais estranhos. Nesse ponto, o conceito de “sorte” e “aposta” de Mashiro não é tão deslocado, mas desbanca o conceito de gênio vendido na mesma história pela Jump, a não ser que genialidade para eles signifique ser sortudo!

A genialidade de um mangaká está em “observar” as tendências culturais e conseguir filtrar elementos que possam fazer sua obra se tornar um hit. No entanto, num mercado de consumo como o atual, é difícil manter um hit popular por muito tempo, portanto, vale muito mais um autor que possa jogar séries de boa vendagem, em sequência, do que um que seja um estouro e depois apague como fogo de artifício. Grandes hits podem dar boas vendas e gerar produtos (Naruto, One Piece e Bleach não estão sendo esticados à toa!), mas depois deixam grandes vãos, se não houver ninguém para ocupar o lugar. No Ocidente, isso é mais evidente com a queda nas vendas porque os leitores se cansaram de acompanhar algumas dessas séries infindáveis.

Assim como para os personagens de Bakuman o trabalho para um aspirante não é fácil e exige muito mais raciocínio e capacidade criativa que apenas sonho. A questão final é: de que maneira o leitor pretende encarar Bakuman? Porque, no final das contas, ele é apenas uma ficção sobre qualquer aspecto que se olhe.

 

(P.S.: E sim! Nós já lemos Bakuman.)

 

Bakuman – vol. 01   JBC
Autor: Tsugumi Ohba e Takeshi Obata
Formato: 13,5x 20,5 cm
Páginas: 208 páginas
Periodicidade: mensal
Preço: R$ 10,90


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