Mangaka = Pessoa Pública?

Temos observado alguns acontecimentos há um bom tempo e hoje, após um incidente desagradável que testemunhamos, achamos oportuno tocar num assunto de interesse de todos os aspirantes a mangaka: comportamento pessoal x pessoa pública.

Antes de tudo, entende-se por pessoa pública “aquela que se dedica à vida pública ou que a ela está ligada; esse conceito engloba também os que exercem cargos políticos ou cuja atuação dependa do reconhecimento das pessoas ou a elas seja voltado, mesmo para lazer ou entretenimento, independente do lucro ou caráter eminentemente social.” (SILVA JUNIOR, Alcides Leopoldo e. A pessoa pública e o seu direito de imagem: políticos, artistas, modelos, personagens históricos… São Paulo: Juarez de Oliveira, 2002, p.89.)

Dessa forma um mangaka, desenhista de quadrinhos, roteirista ou qualquer pessoa ligada a essas atividades também é uma pessoa pública. Até aí, isso é um fato, mas as pessoas sabem lidar com esse conceito? Qual a importância e as consequências de se tornar pessoa pública?

A partir do momento que o indivíduo se torna uma referência, não apenas seu trabalho, mas também seu comportamento se torna o “Norte” para muitos. E é aí que a situação complica.

Muitos aspirantes a artistas nos quadrinhos têm se mostrado muito entusiasmados com  a possibilidade de ganhar dinheiro, fazer sucesso, serem celebrados como pessoas famosas mas, na realidade, pouquíssimos se deram conta do ônus de se tornar pessoas públicas; da importância de lidar com o público, de arcar com suas propostas, de respeitar os leitores e, principalmente, da responsabilidade por suas ideias.

Sim, uma ideia tem força, tem poder de influenciar e multiplicar-se; é um meme em potencial. Isso surge dentro de todas as pessoas, mas quando você é pessoa pública sua ideia tem grande chance de tornar-se esse meme… e então, o que você faz com todo o resto?

Resto? Que resto? Sua vida privada, oras!

Ela é sua e só sua, com certeza, porque todas as pessoas têm o direito à intimidade. Contudo, em tempos de Big Brother, parece que toda uma geração perdeu a noção do privado e resolveu se expor na internet a níveis alarmantes. E o que isso tem a ver com ser mangaka? Tudo.

A partir do momento que, por exemplo, um indivíduo posta em sites, blogs e comunidades, uma infinidade de comentários impensados, agressões gratuitas e brincadeiras de mau gosto, ele enterra cada vez mais fundo suas chances de conseguir um espaço e construir uma reputação de bom profissional.

Sim, um profissional não se faz apenas de boa arte e boas histórias, mas também de boa educação. Numa época onde o departamento de  imigração de um país pode puxar os tweets de visitantes para saber o que falaram antes de viajar, acreditar que ninguém vai saber o que se escreveu de maneira inadequada numa comunidade, é muita ingenuidade.  Ao contrário do que muitos indivíduos pensam, a internet tem memória, e essa memória pode ser implacável.

Uma agressão dita sem pensar hoje, por motivos pueris, amanhã pode fechar portas e dificultar as coisas.

“Então, não podemos ter opinião?”

Claro que sim. Ter opinião é um direito de todos, mas ter educação é obrigação. Mais que isso; educação deve fazer parte da pessoa, ser um valor inalienável. Existem muitas maneiras de se dizer coisas, mas ser agressivo é desnecessário e sempre um recurso pobre e raso.

Se esconder atrás de frases como “eu tenho direito de dizer o que penso” ou “eu sou sincero” além de ser uma desculpa fraca, causa danos feios. Dizer não significa ofender, e verdade não significa grosseria. Quando uma pessoa fala dessa forma só demonstra sua incapacidade de expressar-se e de aprimorar-se como ser social. Qual é então o tipo de comportamento que ele terá futuramente com seus leitores e colegas de profissão? Ele será capaz de realizar uma tarefa como pessoa pública?

É claro que todo mundo pode ficar nervoso, ás vezes, mas é para isso que existem conversas privadas com seus amigos. Internet não é lugar de desabafar frustrações; é espaço público.

Expressar-se de forma moderada não significa falta de sinceridade, mas sabedoria. Educação sempre foi e será um cartão de visitas inigualável e ajuda a construir reputações. Opiniões extremadas, pouca paciência, brincadeiras estúpidas e agressividade gratuita podem fazer parte da lista de opções de um troll, mas não de um profissional. E, importante: educação conta pontos para um editor. Ninguém contrata encrenqueiros!

Vemos jovens sonhando com um futuro onde serão mangakas e desejando itens importados para aperfeiçoar suas artes, edulcorando seus sonhos, mas que, muitas vezes, esquecem que já tem dentro de si o material mais precioso: dignidade.

Para utilizá-la, basta tirar da embalagem interior e mostrá-la através de opiniões educadas, respeitando as diferenças, atendendo aos que tem dúvidas, sendo humilde quando não souber ou sábio quando souber  mais que os outros e, principalmente, compreendendo que o mundo não é todo seu e portanto, não se curvará a você, mas você faz parte dele. Por isso, faça o melhor com o que puder oferecer e torne esse melhor sua parte pública.


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12 respostas a Mangaka = Pessoa Pública?

  1. Jussara disse:

    Foi o senhore Pereira o responsável por este “acontecimento desagradável”?

    • Não. Foi um fato que não aconteceu conosco, mas mesmo assim é desagradável de se ver. Infelizmente, algumas pessoas inexperientes acham graça em zombar dos outros. Lamentável… ¬¬

  2. Igor Lourena disse:

    Fato!

    Quando eu critiquei( sendo mais para leitor) a revista Ação Magazine 01, vi que eu estava preso no quadrinhos mais realista, que pouco curtia traços cômico. Pois achei meio fraco os traços do Madenka e Jairo, eu entendia que faltava mais acabamentos, MAAS NÃO!!…. É ASSIM QUE DESENHA DE FORMA MAIS SIMPLES, ASSIM… MIMIMI.. e tal.

    Mas por outro lado, eu aprendi a enxergar os estilos mais simples. Mas fala sério, “estudar português”, a galerinha do facebook se acha que sabe mais que outro, eu sei digitar corretamente, é que meu teclado tá uma merda!

    Malz ae por falar demais!

  3. Bom texto. Convivendo com essas questões há mais de 20 anos, cansei de ver pessoas que “passam para o lado profissional” sem que aprendam a se portar como um.

    Da mesma forma, vejo pessoas assumirem uma postura diferente de quando não estavam na posição de vidraça e sim de pedra. Quando se publica, seus próprios limites aparecem e aí a pessoa tem que mudar sua forma de se expressar pra não ganhar inimizades ou ser mal vista no meio profissional no qual entrou.

    Quero crer que essas estão aprendendo algo, e não apenas sendo dissimuladas por interesse próprio.

    Sucesso pra vocês!

  4. Takamura disse:

    Primeiramente quero elogiar o layout maravilhoso que fizeram aqui, parabéns meninas.

    Bom, complicado este tema. A privacidade realmente esta cada vez mais rara na era digital, mas ainda há alguns que zelam por ela. Detesto super-exposição, e algumas pessoas acham que a vida não tem sentido se não for pra ser famoso. Fama é responsabilidade.

    Acompanho muitos blogs de amigos desenhistas, que ficam enchendo lingüiça em assuntos infantis e trocando ofensas. Isso nada acrescenta e ainda rebaixa o seu próprio nome.

    Ter um nome hoje, é sinal de virtude. Afinal, ter um nome, para muitos e bem menos importante que a imagem.

  5. Leonardo disse:

    Ótimo artigo, pessoal! Vocês pegaram bem no ponto da questão: internet é espaço público e não uma conversa privada. Pessoas (e autores) se esquecem disso.

    Por mais que uma boa obra seja maior que seu autor (grandes pessoas necessariamente não são grandes autores e, por analogia, grandes autores podem ser pessoas execráveis) sua marca no mundo digital pode atestar contra ou a favor do seu trabalho.

  6. Alexandre disse:

    Eu só posso parabenizar vocês por esse texto. Racional, preciso e que toca em um assunto importantíssimo para quem está no meio.

  7. Zezinho Matz disse:

    Tá aí outra lição a ser aprendida pelos mais leigos ou não…

  8. GLEICIANE disse:

    O QUE EU VEJO ACONTECER MUITO, PRINCIPALMENTE EM COMUNIDADES DO ORKUT, SÃO JOVENS QUE NEM SABEM DESENHAR DIREITO, CRITICANDO DE FORMA HUMILHANTE A OUTROS QUE ESTÃO NO MESMO NÍVEL QUE ELES E AS VEZES QUE JÁ DESENHAM ATÉ MELHOR QUE ELES.
    ACHO QUE ISSO É UM EFEITO DA CRESCENTE EGOCENTRICIDADE QUE TIRA DAS PESSOAS A CAPACIDADE DE ELOGIAR POR NÃO CONSEGUIREM SUPORTAR QUE ALGUÉM SEJA MELHOR DO QUE ELES EM ALGO!

  9. vitor souza disse:

    Texto genial. Vou mostrar para os meus amigos.

  10. Vítor Souza disse:

    Há muita negatividade no mundo. Infelizmente isso tem começado em casa, com os pais jogando negatividade nos filhos por suas frustrações , magoas e etc. o que devemos fazer e nos tornar imunes a negatividade. Se não fizermos isso vamos ficar como essas pessoas que recebem negatividade e a transmitem através de palavras negativas.
    Temos sempre que falar coisas para o bem e não para o mal.

  11. Vítor Souza disse:

    Temos sempre que falar coisas para o bem. Que vão trazer paz, alegria felicidade, sabedoria, amor, crescimento. Temos sempre que plantar o bem para colher os isso depois. O bem que plantamos sempre volta, de alguma forma.
    Temos que ser uma boa influencia para as pessoas que nos cercam. ser a luz do mundo.

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