Assistentes x Aprendizes x Profissionais

Esse é um assunto que sempre vem à tona quando se fala em otimizar o tempo para produção de quadrinhos, mas, como tantas coisas no Brasil, poucos se põem a observar a situação  com a real atenção que ela necessita.

No universo da produção de mangás é sabido que muitos autores produzem títulos com a ajuda de assistentes de produção, mas afinal, o que fazem e quem são estas pessoas?

As respostas podem ser muitas, em alguns casos é notória a ajuda de amigos, parentes, e outros são profissionais que se dedicam a essa tarefa como uma profissão, tanto quanto os autores se dedicam as suas obras.

Para podermos entender o universo destas pessoas que trabalharam e trabalham, ainda hoje no mercado japonês, sem ter, na maioria dos casos, um devido reconhecimento, precisamos compreender um aspecto cultural nipônico.

Em primeiro lugar, temos Confúcio… sim, ele mesmo! O tal filósofo chinês! Entre outras coisas Confúcio pregava que todas as pessoas deveriam ser conscientes de suas tarefas e fazê-las de forma correta. Ou seja, ele pregava o condicionamento social como forma de harmonia. Dessa forma sua doutrina se baseava na criação de uma sociedade capaz e voltada ao bem estar comum. Isso lembra o Japão? ^___^

Isso é tão forte na cultura japonesa que se tornou um aspecto social agregado ao ritmo de trabalho deles. Culturalmente, o japonês não apenas tem uma consciência muito forte de sua responsabilidade numa tarefa, como também tem um enorme senso de grupo e obediência. No mercado de mangás isso não é exceção e os assistentes estão aí para comprovar isso.

Mas o que um assistente faz, afinal?

Um assistente é praticamente um “faz tudo” em alguns casos. Ele pode desde apagar o lápis de um desenho, cumprindo uma função de cleaner como também pode ser o cara que encomenda o almoço para o grupo. Mas o mais importante: o assistente é quem faz o trabalho de apoio e já conhece a atividade.

Ele não é um aprendiz. No Japão, o assistente contratado já sabe desenhar, passar tinta, colocar retícula… qualquer uma dessas funções que ele tenha sido contratado para fazer. Ele é um profissional de apoio, não um aprendiz que vai entrar para aprender a desenhar, a fazer tinta, a descobrir macetes ou a chegar na hora certa. Ele já sabe fazer isso. Seu trabalho de adaptação consiste em assimilar o estilo do artista e adaptar-se ao ritmo daquele projeto, o resto ele já tem de vir sabendo.

No Japão, o objetivo de se tornar um assistente está ligado à doutrina confucionista de começar por baixo para aprender o ritmo de um profissional, um “mestre”, para depois tentar ser um profissional com sua própria obra, um dia.

Mas existem outros tipos de profissionais no Japão: aqueles que optam por se tornarem assistentes como sua profissão fixa. Seu trabalho será sempre o de apoio. Muitos optam por isso por não terem perfil para se tornarem mangakás de destaque, embora tenham habilidades manuais, e outros por uma opção de preferir trabalhar como parte de um grupo.

Aqui se difunde a ideia de que o assistente vai aprender com o artista para depois ajudar e não é assim que funciona. Ele já tem de conhecer programas, desenhar ou qualquer outra coisa que seja necessário. Se o assistente vem cru, ele não é assistente, é um aprendiz e não tem função para um artista que já está lotado de trabalho, pois este vai perder mais tempo ainda para lhe ensinar algo.

Se alguém pensa em se tornar assistente, deve entender que isto é um emprego, não um curso ou estágio. Nesse emprego só há tempo para pegar o ritmo do trabalho, e não para aprender do zero. Por isso, a pessoa que deseja fazer isso tem de ter duas coisas em mente: já tem de saber executar as atividades para o qual será contratada e tem de aprender a seguir ordens.

É possível ser um profissional sendo um assistente e por incrível que pareça, isso é tão difícil como ser um mangaká, pois as duas posições exigem as mesmas coisas: disciplina e respeito.


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