HQs, Eventos e Bibliotecas

Participei há pouco mais de um mês de um conjunto de atividades promovido pela rede de bibliotecas públicas da cidade de Guarulhos envolvendo quadrinhos. Essas atividades tinham como objetivo principal divulgar a gibiteca que foi aberta ao público dentro da Biblioteca Monteiro Lobato (a biblioteca mais antiga da cidade e também a principal) e mostrar um pouco do universo das histórias em quadrinhos. Além do workshop que ministrei nos dias 12 e 13 de maio, ocorreu também uma palestra no dia 28. Também aconteceu uma oficina de quadrinhos no dia 26 com o desenhista Artknight, dentro da biblioteca, para os interessados. Para falar um pouco do universo dos quadrinhos, com o auxilio da biblioteca montei uma exposição – uma história dos Quadrinhos – contando resumidamente o surgimento deste tipo de narrativa tanto no ocidente – especialmente EUA e Europa – quanto no Japão, onde se desenvolveram três expressivos pólos de produção. Como o assunto é muito vasto, a exposição se focou em alguns tópicos, com o objetivo de apresentar um pouco do mundo dos quadrinhos não apenas para leitores do gênero, mas, principalmente, para aqueles que estão interessados em conhecer esse universo tão rico e criativo.

Nesse processo, percebi o quanto esse meio de comunicação pode ser desconhecido dos profissionais que trabalham em bibliotecas. As definições, modos de produção e linguagens são estranhas àqueles que, até pouco tempo atrás, se dedicavam apenas aos livros como fonte de informação e, é apenas graças à disposição desses profissionais da área de biblioteconomia em conhecer esse “outro mundo” que se pode mudar este quadro. Contei com a ajuda de pessoas prestativas e interessadas e isso é muito importante dentro de uma biblioteca: querer conhecer o universo onde estas informações são geradas é um importante passo para oferecer ao leitor dados que o motivem a aprender, apreciar e respeitar este tipo de leitura.

Atualmente, muitas bibliotecas possuem em seu acervo material em quadrinhos para oferecer aos seus leitores, mas a questão é: como esse material é tratado para que chegue às mãos do leitor? Em algumas bibliotecas tradicionais como a Mário de Andrade em São Paulo, já existe acervo tombado de quadrinhos e, para isso, conta com profissionais que o conheçam. Isso é um ponto importante: até há alguns anos atrás os quadrinhos recebiam um tratamento diferenciado do resto do acervo e, em muitos lugares ainda, é visto como material de descarte e pouca utilidade. Se essa mentalidade persiste dentro de algumas bibliotecas decorre do fato que os profissionais envolvidos têm pouca intimidade com este tipo de material e desconhecem a evolução ocorrida dentro deste veículo de comunicação durante as últimas décadas. Não se pode culpá-los totalmente por isso: nossa sociedade como um todo tem sua parcela de culpa insistindo, ora em tratar o material com infantilidade, ora em ignorá-lo como fonte de informação. Primeiro porque ainda temos reflexos negativistas das gerações antigas em relação aos quadrinhos, com o velho ranço de “material inútil” e sua consequente desatualização sobre seu conteúdo atual e, segundo pelo fato de ser um material produzido em larga escala para meios populares – esse aspecto é especialmente curioso, pois o conceito de obra-arte se reflete tanto nos quadrinhos, da mesma forma que se refletiu nas outras artes. Basicamente, ele parte do pressuposto de que se algo é feito em pequena escala e com acabamento mais refinado, se torna melhor que o resto, ignorando-se a funcionalidade que possa vir a ter. Desse modo, conclui-se que o material que é feito em grande escala, com acabamento mais simples, deve ser ruim, não importando o conteúdo que tenha. Embora muitas pessoas não percebam isso, é normal elas usarem esse conceito, sem perceber, na hora de selecionar o que é válido ou não para leitura, de tão impregnado que ele está na coletividade social.

Tirando o material feito em moldes de livros ou álbuns, os quadrinhos oferecem uma gama enorme de variedades em seus formatos e acabamentos, além de sua grande complexidade de títulos que confunde aqueles que desconhecem a área e sim, se faz necessário a presença de pelo menos um profissional dentro da biblioteca que tenha noção do tipo de material que será apresentado ao leitor, tratando-o com respeito, como se trataria um livro. Hoje, mais do que nunca, se percebe a força da influência dos quadrinhos em várias gerações, e seu poder de comunicação pode ser usado de diversas maneiras, tanto didáticas e lúdicas para o estímulo a leitura, quanto comerciais, através de filmes, não como um objeto a parte, mas como um complemento da literatura tradicional e dos meios de comunicação. Por isso se faz importante ele ser agregado à biblioteca de forma adequada.

O trabalho feito na Biblioteca Monteiro Lobato mantém esse padrão de cuidado para que o acervo não apenas chegue ao leitor, mas possa ser tratado com respeito pelos profissionais que lidarem com ele. Espero que cada vez mais as bibliotecas, como um todo, percebam que os quadrinhos não são “inimigos” da literatura, mas amigos de todas as artes e que este acervo faça parte do todo.

 

Montserrat   ^____^


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