Turma Da Mônica Jovem – Os caminhos dentro da produção nacional de mangá.

A vontade está lá. A idéia e os recursos também, mas faltaram elementos para que “A Turma da Mônica Jovem” fosse algo realmente novo.
Pode parecer um comentário negativo, mas não é. Como leitoras, apreciamos e admiramos o trabalho que Maurício de Souza fez durante todos estes anos. Como profissionais, temos de observar os pontos positivos e negativos desse novo trabalho.
Inicialmente, podemos dizer que não ocorrem grandes mudanças na estrutura da obra. Nunca imaginamos que as personagens iriam mudar seu traço drasticamente, o que provocaria uma grande descaracterização visual – e consequentemente, uma perda de alguns leitores, acostumados com a Turma da Mônica infantil. Mônica e seus amigos cresceram para ter um traço muito similar ao da Tina. Até aí, tudo bem, mas com certeza havia coisas que poderiam ser mudadas… e ousadas: a arte-final e a composição, por exemplo.
Pela capa, o material parecia prometer muito. O visual do Cebolinha e da Mônica estava realmente teen. Cebolinha, então, parecia ter crescido, ser mais “descolado” e até emanava um charme natural. Muito positivo. Mas a capa parece ter sido feita por outra equipe e temos essa impressão ao folhear o miolo. Nota-se, bruscamente, uma mudança na qualidade da arte (observem o perfil do Cebolinha na capa e seu equivalente na história), passando a sensação que tudo foi feito de modo muito corrido. A arte “em tinta” – que na verdade é vetor – muito apropriada para o traço infantil, tirou a sutileza de um desenho mais juvenil, dando o mesmo ar do material tradicional da equipe. Na capa existe um sutil trabalho com a espessura das linhas que praticamente some no conteúdo interno. A diagramação mudou um pouco, mas a composição ousou de menos e parece um pouco perdida. Poderiam ocorrer mais angulações de câmera, mas isto implicaria num desenho mais detalhado dos cenários (estes não mudaram um milímetro). Também houve erro de continuismo – notem como as “portas” no quarto da Mônica se movem, ou somem!…bom, talvez seja a cama que se mova? Quanto ao acabamento, aí se nota muitas falhas, infelizmente. O tipo de “retícula” usada não ajudou nem um pouco. Um programa como o Manga Studio resolveria isso bem depressa e cremos que existe dinheiro para adquirir tal software, com certeza! A gradação das retículas foi inadequada, assim como um excesso delas (muitas vezes houve uma aplicação indevida e no tamanho errado), sem falar nos “brancos” deixados para trás (partes de roupas sem retículas mesmo), reforçando essa impressão de material feito às pressas.
Quanto ao roteiro… bom, TDM cresceu, mas a história, não. Se houve uma preservação da imagem das personagens, mesmo elas tendo crescido, houve uma preservação do mental delas também. Quem lê esta revista tem a impressão de ler a TDM tradicional. Não houve um amadurecimento real. O grande problema não é a temática fantasia, na verdade – foi sua entrada repentina. Poderia haver uma introdução a todo universo juvenil que os cerca, seus anseios, seus objetivos. Coisas assim cativam o leitor para que ele, aos poucos, aceite um outro universo de possibilidades que poderá vir, a seguir. Na obra original foi assim: Mônica mostrava seu cotidiano e, com o passar do tempo, explorou um mundo de aventuras mais fantasiosas e muito divertidas.
O pessoal pulou essa etapa, como se isso fosse descartável, por esse princípio ter sido usado antes. Oras! Não vimos a Mônica crescer, por isso é vital para o leitor ver seu novo universo, mas não o é para o roteirista que a conhece muito bem. Teriam pecado nesse erro de estrutura?
Desse modo, é uma TDM simples e infantil com corpo adolescente que se apresenta diante do leitor, mas que, ironicamente, parece estar tentando se explicar o tempo todo por ter crescido. Notamos isso em momentos desnecessários, como no comentário da roupa vermelha, da dieta da Magali ou dos cabelos “novos” do Cebolinha. Isso já fora citado nas notas das personagens, não havia necessidade de repetir-se. Outras situações também parecem deslocadas como o pai da Mônica tendo um “surto” ao saber que Cascão toma banho (seria algo mais lógico para o pai do próprio fazer, mas preferiram fazê-lo escorregar no “nada”).
Muita perda de páginas com situações descartáveis, uma história fantasia num momento onde o leitor espera o novo mundo das personagens, e um mistério envolvendo os pais delas que nos faz pensar, sinceramente, que se podia passar sem isso.
Nem vamos comentar as gafes visuais do “momento Japão Feudal”. Isso se resolve folheando um bom livro de história do Japão.

O fato, em suma, é o seguinte: qualquer um que fizer algo que tem como rótulo “em estilo mangá”, sofrerá as inevitáveis comparações com o gênero. Independente do traço juvenil, isso não tira a responsabilidade de se fazer algo bem feito e com conteúdo interessante.
Achamos que a idéia é viável sim, mas esse material tem de ser muito melhor trabalhado para ganhar a consideração dos leitores e temos certeza de que existe uma estrutura que possa fazer isso. Maurício de Souza é capaz e não esperamos menos dele do que algo “muito bom”.
Tenho de citar algo que foi feito e merece um ponto muito positivo. TDM Jovem foi produzido e impresso no sentido de leitura ocidental. Isso mostrou maturidade com relação ao fato de ser um material feito aqui, primeiramente para os brasileiros, mesmo optando por usar técnicas orientais de composição e acabamento.

Pode-se afirmar que a TDM finalmente entrou no universo do mangá e isso nos aponta para um tópico importante: esse material será capaz de se adaptar bem às exigências do gênero, independente de vender o que vendeu? Afinal, não basta vender muito, tem de ser bom.
Se o material se adaptar, então haverá uma estrada mais ampla com um título de “renome” ajudando a puxar o carro “da produção de mangás no Brasil”? Pode ser um ponto positivo.
Se o material não se adaptar, a estrada continuará estreita e caberá a outros segui-la, sem um nome de peso ao lado.

O tempo vai nos dizer e, esperamos que Maurício consiga se sair bem nessa empreitada, pelo conteúdo e não apenas pela fama das suas personagens. O Brasil só terá a ganhar se esse trabalho for encarado dessa forma. ^_____^


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5 respostas a Turma Da Mônica Jovem – Os caminhos dentro da produção nacional de mangá.

  1. Alexandre Soares disse:

    Eu sinceramente me decepcionei muito com o material. É como você falou: poderiam e deveriam ter ousado mais, mas tiveram medo de desagradar o público mais tradicional e deu nisso. E também achei um erro ter partido logo para o fantástico ao invés de puxar humor do cotidiano. Mas acredito que eles devem continuar por essa linha a julgar pelos primeiros resultados – olhem essa pequena nota da Anime Pro:
    http://www.animepro.com.br/noticias.php?IdNoticia=57&Data=082008

  2. Montserrat disse:

    Obrigada, Alexandre!
    Como você citou, foi decepcionante nesse sentido.
    Acreditamos que muita coisa, na parte de composição, poderá ser aperfeiçoada, mas achamos difícil Maurício conseguir dar um jeito no psicológico das personagens e na trama, com o bonde já andando. Se conseguir, será um marco muito positivo. Fazer as personagens da Mônica se tornarem adolescentes, implica em fazê-las crescer e ter “desejos” de todos os tipos, serem reais como qualquer garoto ou garota nessa faixa de idade. Para os leitores que cresceram seria delicioso, mas se ele pretende englobar o pessoal infantil que lê TDM, não irá nem para um lado nem para outro. Vai ficar algo indeciso, no meio.

    Abraço!^____^

  3. Soni disse:

    A única coisa dessa nova TDM que remete ao mangá são os olhos deles, o restante é Mônica pura! Não mudou nada.^^ Como tá escrito na capa : “estilo” mangá.

  4. Eu fiquei decepcionado!

    Aidna mais que antes do lançamento, quando eu descobri o projeto, entrei em contato e mandei dúzias de idéias e sugestões que achava que tería mais a ver com o que se apresentava (fui ingênuo, sei.) e quando eu li… fiquei incomodado. E quando eu vi que foi o maior sucesso editorial do ano… Fiquei triste porque vi que não ia mudar nada.

  5. Taisu disse:

    O que me irrita mais é a falta de originalidade das histórias. Minha irmã de 9 anos lê isso aos montes . A história é feita basicamente de pequenos plágios de tudo que se possa imaginar. É muita falta de imaginação.

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